A Farsa da Pele Perfeita, por Krithika Varagur

A pele resistiu a milhares de anos de evolução. Como podemos entendê-la tão errado?

A pele perfeita se tornou a questão da mulher pensante. É normal, atualmente, pessoas de um certo círculo gabarem-se de gastar a maior parte do seu salário em serums faciais. As últimas tendências do mercado de cuidados da pele têm um elenco científico respeitável: peptídeos, ácidos e soluções concentradas entre outros componentes com sufixo clínico que são tipicamente vendidos em pequenas quantidades por largas quantias de dinheiro.

Mas tudo isso é um golpe. Tem que ser um golpe. A pele perfeita é inatingível porque ela não existe. A ideia que todos nós deveríamos tê-la e querê-la é um desperdício de tempo e dinheiro. Especialmente para mulheres, que são desproporcionalmente coagidas tanto pelo ideal da pele perfeita quanto pela sua busca material.

O que eu chamo de "nova indústria de cuidados da pele" apresenta uma ruptura com o tipo de cosmético que nos era vendido no passado. Ela abrange conceitos como "maquiagem sem maquiagem", "pele viçosa", "pele natural". Também é uma reação à popular e populista estética do contorno, o universo paralelo da maquiagem exagerada que é muito difundida no Instagram e no Youtube; pense na Kim Kardashian mostrando como ela faz sua maquiagem, direto do smartphone dela para o seu. Ainda que a forma antiga tenha mobilizado o capital social atual, essa aparência requer, na verdade, a mesma quantidade astronômica de produtos. Essa nova proposta de tratamentos faciais ainda é principalmente sobre comprar coisas e as exibir para os outros - para provar que você trabalhou duro pelo que você tem, mesmo que você seja, digamos, uma modelo, cuja profissão auto-seleciona pessoas com genética superior.

Como outros órgãos humanos, a pele resistiu a milhares de anos de evolução sem a ajuda de tinturas e bálsamos. Como podemos entender ela tão errado? Imagine tratar outros órgãos, como o seu fígado ou pulmão, com o tipo de monomania direcionada à sua pele. E apesar dos gestos científicos das marcas de beleza, a newsletter da escola médica de Harvard uma vez concluiu que "o campo de cuidados com a pele é um domínio onde existe pouca ciência para ser descoberta". De acordo com alguns dermatologistas, muitas mulheres pulam mesmo o hidratante diário, o mais básico dos cosméticos para a pele; um estudo de 2016 citado no jornal de dermatologia da Índia (Indian Journal of Dermatology) observou que na verdade ninguém sabia o que um hidratante faz. Mas nós chegamos a ver a busca pela pele perfeita através de um buffet rotativo de produtos como uma escolha empoderadora.

Quando o mundo está caótico, faz sentido que a sociedade dê uma volta introspectiva. Mas a loucura dos cuidados com a pele não é, por definição, introspectiva: você olha para si mesmo mas para, literalmente, na camada mais superficial.

No coração da "nova indústria de cuidados para a pele" está a violência química. Experts se referem aos "ativos" - produtos como retinóis, esfoliantes químicos, alfa e beta hidroxiácidos. Toda marca de cosméticos hoje em dia tem que apresentar um ácido para continuar atualizada, e eles precisam assegurar para você, como a gigante de cosméticos Glossier (que representa o espírito do nosso tempo) acaba de fazer com o lançamento do seu esfoliante "aperfeiçoador de pele" chamado "Solution" (solução, em inglês), que os seus produtos são "muito seguros". "Ácidos são seus amigos", diz o marketing do produto. É uma maldição admitir os riscos do uso prolongado ou impróprio dos produtos com ativos. Sob pressão poderíamos admitir, como faz a descrição de "Drunk Elephant" (Elefante Bêbado, em inglês), um serum noturno glicólico de 90 dólares, que os ácidos alfa-hidroxiácidos podem ser "sensibilizantes", apesar da marca ter destacado para o The Outline que o produto inclui ingredientes para suavizar esses efeito. Então tá.

Existe um abismo para o mal uso devido a abordagem faça-você-mesmo a qual os consumidores são encorajados ao adotar essas químicas. Existe, por exemplo, um culto aparentemente obsessivo pelo produto da vez francês chamado "Biologique Recherche P50" (pesquisa biológica, em francês), com valor de mercado de 101 dólares que combina múltiplos ácidos diferentes; uma variante inclui phenol, "um antiséptico que provoca dormências e evoca algumas preocupação em relação à segurança", como a sua propensão em causar queimações, náusea, vómito e coma. P50 inspira em mim ao mesmo tempo medo e pena, uma vez que parece quebrar regularmente as "barreiras" do rosto da mulher, a camada externa levemente ácida que regula a sua [própria] hidratação. Se você quebra a barreira de proteção da sua pele, você vai sofrer com a pele escamosa e com rachaduras secas por meses. E como consequência você deverá renunciar aos ativos.

Comentaristas no forum "r/SkincareAddiction" no Reddit falam sobre construir resistência na pele para ácidos pesados como se estivessem se preparando para a subida de uma montanha. Será que isso vale a pena? Na pressa para tornar esses produtos disponíveis para todos, a indústria ignorou um grande número de sinais de alerta. Uma imensidão de pessoas foram literalmente queimadas por ácidos.

"Eu tive centenas do que pareciam pequenos vergões irritados por toda a parte de baixo do meu rosto", comentou uma pessoa que usou uma combinação de ácido glicólico e um creme para acne chamado Tretinoin. "Meus poros estavam GIGANTES, eu tinha poros obstruídos por todo o meu queixo e maxilar, e eu tinha pedaços com textura de lixa por toda a linha do meu queixo e bochechas. Eu também desenvolvi a pior acne que eu já tive NA VIDA...quando eu finalmente visitei a minha esteticista, depois de olhar para o meu rosto, ela me explicou que a minha pele agora era essencialmente uma grande ferida aberta. Ela podia ver micro fissuras por toda a superfície da minha pele e ela disse que eu tinha queimado profundamente a minha pele". Credo.

 

Mas a loucura dos cuidados com a pele não é, por definição, introspectiva: você olha para si mesmo mas para, literalmente, na camada mais superficial.

 

Especialistas desaprovam tais produtos picaretas. "Mais NÃO é melhor!" afirma o dermatologista nova-iorquino Whitney Bowe. "Americanos são movidos por resultados. E certos ativos podem realmente entregar resultados. Porém, como consequência de todas as opiniões disponíveis no mercado, as pessoas frequentemente combinam produtos de forma aleatória, sem perceber que muitos deles estão se sobrepondo, ao invés de complementarem uns aos outros no que diz respeito ao mecanismo em ação".

Bowe compartilhou comigo uma história de horror particular. "Eu tive uma paciente que estava fazendo esfoliação com um esfoliante facial, esfregando o esfoliante com uma bucha vegetal, e depois aplicando um serum que continha ácido glicólico, e completando seu regime com um creme com retinol em cima de tudo.", ele disse. "A pele dela estava ferida, coçando e inflamada. Essa história está longe de ser atípica no meu consultório.".

Aliás, os sabonetes já foram considerados impróprios para uso humano, porque lavar-se e tomar banho eram categoricamente não higiênicos antes do advento da água encanada no século 19. Mesmo depois disso, o uso dos sabonetes só se difundiu porque empresas como a Procter & Gamble gastaram muito propagandeando seu produto em uma nova mídia, e todo um gênero de televisão foi criado assim, chamado "soap operas". Talvez nossa geração ainda possa ter uma "serum web series".

Antes de você começar uma rotina de cuidados da pele militante, é instrutivo pensar sobre porque você quer uma e porque parece um bem intrínseco.

"A disciplina consiste de várias técnicas, cujo objetivo é fazer o corpo tanto dócil quanto útil. O corpo humano se torna uma máquina, cujo funcionamento pode ser otimizado, calculado e melhorado por meio da internalização de padrões específicos de comportamento", escreveu o filósofo Michel Foucault em Vigiar e Punir.

Não é verdade que todos nós temos amigos que são fanáticos por cuidar da pele e mesmo assim não têm (sussurrando) uma pele realmente boa? Como isso é possível? É simples: o produto final de uma rotina de cuidados da pele não é a pele perfeita, mas a rotina em si - alguma coisa que, no estilo americano de alto padrão, você tem que constantemente escalar com tempo, sem estagnar em nenhum momento. Afinal, você não quer melhorar?

Claro, algumas pessoas com rotinas meticulosas têm ótima pele. E mesmo assim elas ainda têm imperfeições. Eu chuto que a pele perfeita ainda guarda um certo prestígio da vida real  na era do retoque mágico da câmera do celular. Mas a gente poderia usar a tecnologia para o nosso benefício e abraçar um futuro suavemente desfocado.

O problema com isso é que, com o paradigma atual, uma imperfeição parece uma amostra de quem você é como pessoa. A palavra em inglês para espinha, "pimple", provavelmente sempre carregou o peso do seu gênero, chegando até a gente a partir de palavras antigas para mamilos: a palavra em latim "papilla" era mamilo, "papula" era uma inflamação ou espinha. Espinhas hoje são estigmas. O pecado que elas revelam não é tão vulgar quanto o adultério, é apenas não cuidar bem de você mesmo.

Não deveria ser assim. Mulheres reais e imperfeitas têm peles reais e imperfeitas - e está tudo bem. A pele, aliás, protege naturalmente contra doenças e corpos estranhos, regula a temperatura do corpo, previne a perda de água e isola os tecidos mais finos, sintetiza vitamina D, etc., etc. Dê a ela algum crédito.

 

O problema com isso é que, com o paradigma atual, uma imperfeição parece uma amostra do que você é como pessoa.

 

Claro, tudo que está na moda, sai da moda: aparentar frescor e brilho, a onipresente pele viçosa da mulher de hoje, é uma fase como todas as outras. A pele com viço vai envelhecer da mesma forma que a sombra azul e o lápis de boca escuro envelheceram. O que não é uma coisa ruim, é só uma coisa. Nesse filão, a Glossier, cuja coleção inaugural foi um hino do brilho, agora vende pó facial. E é assim o círculo de vida em uma sociedade capitalista.

Pra onde isso leva todos nós, pessoas que têm pele? "Pare de desejar isso" é uma direção severa, mas eu não consigo imaginar uma alternativa para a presente mania da pele perfeita. Além de que, o mundo está configurado para prejudicar nossa pele de qualquer forma: suprimento de água tóxica, clima e meio-ambiente imprevisíveis e stress.

E a maior parte dos produtos de cuidado com a pele é apenas perda de dinheiro. Os investimentos invisíveis caem como uma luva para os ricos entediados de hoje. Eles costumavam construir castelos e museus; hoje compram smartwatches desajeitados e vitaminas personalizadas. Aqueles com renda descartável iriam, antes de todos nós perdermos a cabeça, comprar livros, arte, lindos sapatos ou literalmente qualquer coisa que dê mais prazer do que outro esfoliante desnecessário.

Os tempos mudam. De uma perspectiva histórica mundial, nós estamos explodindo com os ideais de cor de pele, peso do corpo, e mesmo pelos corporais em um tempo recorde. Se apenas pudéssemos fazer o mesmo com nossos rostos.

// perfil

Krithika Varagur é escritora e jornalista independente, atualmente mora em Jakarta, na Indonésia. Seus artigos têm como sujeito a religião, extremismo e direitos humanos e foram publicados nos jornais The Guardian, The New York Times, na revista The Atlantic, entre outros.

Durante seu tempo no sudeste da Ásia, ela deu um furo de reportagem com uma investigação sobre a fábrica de roupas da Ivanka Trump, relatou o flagelo público sofrido por indonésios gays e narrou a história de uma das crianças roubadas do Timor Leste.

// nota

Esse artigo foi originalmente publicado no site The Outline e teve autorização da autora para ser traduzido e compartilhado aqui. Par acessar o texto original, clique aqui.

Revisão da tradução por Yessica Klein.