Tingimento natural com Flavia Aranha

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Eu ainda estava na faculdade quando ouvi falar do trabalho da Flavia Aranha pela primeira vez. Quando ela começou, a gente ainda não tinha no Brasil nenhuma referência de marca de moda com valores éticos e de sustentabilidade. A Flavia combina roupas de desenho durável com tingimento natural, criando uma marca coerente onde toda a cadeia de produção é pensada para priorizar relações de comunidade, saberes tradicionais e qualidade. Eu gosto muito de acompanhar as viagens de pesquisa dela pelo interior do Brasil no instagram, a investigação sobre plantas e processos manuais parece ser parte intrínseca do seu trabalho de criação.

No final do ano passado, quando eu já estava com viagem marcada para o Brasil, fui convidada para assistir a uma das oficinas que ela realiza em seu ateliê, chamada "tingimento natural têxtil no contexto urbano". Essas oficinas são um lindo desdobramento do trabalho da marca, surgiram da vontade da Flavia em compartilhar seu conhecimento pra fortalecer o mercado e trazer mais pessoas pra perto dessa técnica que ela estuda há tanto tempo. Fiquei muito animada porque já tinha feito uma primeira tentativa totalmente experimental com tingimento e também porque seria mais uma oportunidade de praticar o fazer manual. ⠀

// o tingimento

Fui direto do aeroporto para a oficina e o conteúdo do curso era tão interessante que nem senti cansaço. Começamos o dia com as apresentações (amo essa parte!) e eu contei que o meu maior interesse na oficina era de desenvolver autonomia pra fazer mais com as mãos e pra me educar sobre o processo (eu constantemente faço esses experimentos pra não esquecer que tudo precisa de grande quantidade de energia para ser feito). Muitas das minhas colegas tinham motivações parecidas e quando chegou a vez da Flavia se apresentar, ela reforçou que o entendimento disso muda completamente a forma com que a gente se relaciona com um produto, da forma de comprar até a forma de cuidar. 

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Ela nos fez pensar sobre a ironia de que embora o tingimento sintético e as fibras sintéticas sejam relativamente novas em comparação ao conhecimento secular do tingimento natural, a gente esqueceu completamente como era feito antes e passou a enxergar o sintético como única possibilidade para manter um sistema de produção veloz e crescente, mesmo que isso implique a degradação do meio ambiente. Flavia é consciente do impacto dos seus processos e nos lembra que ele existe em tudo. Com o tingimento natural não é diferente, ele usa bastante água, por exemplo. Para ela, é uma questão de escolher e de se responsabilizar pelas consequências. Eu simpatizo com marcas que reconhecem seus limites e oportunidades de melhora.

Pra Flavia, o tingimento natural não é apenas um método para transformar o tecido sem cor em um tecido colorido, mas também é uma conexão de vários saberes - da química, da física, da botânica e também da antropologia. O lugar influencia a escolha dos pigmentos e o que eu acho mais legal (de longe!) é a possibilidade de tingir com materiais que a gente tem à mão, que são familiares pra gente. O nome da oficina evidencia o contexto urbano, porque acontece na cidade, mas tudo é adaptável para realidades diferentes. Essa oficina é uma oportunidade de criar o próprio caminho. Eu, por exemplo, gosto de descobrir as cores das plantas que são de comer mas também de tingir como o café e a cúrcuma, mas o que faz meus olhos brilharem é a possibilidade de transformar sobras em matéria prima, como é o caso da casca da cebola e da casca da jabuticaba. 

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Acho legal lembrar que esse conhecimento pode também sair do contexto da moda e ir pra decoração, ou deixar de lado a fibra dos tecidos e ir para a madeira, papel, palha, e até comida (por que não?). Um curso desses te dá ferramentas pra criar peças novas ou pra dar vida nova àquelas que já estão um pouco desgastadas. Eu, com certeza, vou querer testar todas essas possibilidades. 

// a experiência

Ao longo de dois dias, produzimos uma cartela com 10 cores em tons de rosa (pau brasil, jabuticaba, crajiru, jatobá e catuaba), amarelo (cúrcuma, urucum e cebola amarela) e verde (erva mate e cebola roxa). Aprendemos a fazer sabão natural para limpar a fibra (purga), como fazer com que as fibras se relacionem melhor com os corantes (mordente), fizemos os extratos com as plantas. Finalmente, já no segundo dia, começamos a tingir nossas amostras em quatro materiais diferentes. Também tivemos um projeto individual, onde cada uma de nós tingiu um lenço de algodão orgânico.

Sentir o calor da água fervendo nas panelas, fazer tudo com calma e cuidado e ver a transformação das plantas em tinturas é participar de uma experiência sensorial que pode gerar vínculos afetivos com o método e com o objeto tingido. É o caso do vestido do casamento da Flavia, comemorado com um almoço em sua casa. Ela nos contou que usou restos da preparação do almoço pra tingir um vestido branco que usou no dia. Quando pensamos no tingimento das nossas próprias roupas, criamos uma intimidade e uma troca com a matéria prima.

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É preciso saber que o processo do tingimento natural é vivo, quer dizer, ele está suscetível a diferenças de tom entre uma leva e outra. Cada planta é diferente, tudo vai depender de onde ela foi cultivada, como estava o clima, quanto de água e sol ela recebeu, se foi exposta a agrotóxicos, etc. O tecido tingido também pode queimar no sol e desbotar. Esses efeitos fazem parte do trabalho com pigmentos que têm origem na terra e não no laboratório. Podemos escolher apreciar o imprevisível como qualidade. 

// datas

As inscrições para o novo ciclo de cursos de tingimento natural já estão abertas com conteúdo e valores revisados. Serão três experiências diferentes, entre junho e julho, no ateliê da marca em São Paulo. Todos os cursos são ministrados pela própria Flavia Aranha. 

Impressão Botânica em Têxteis - sábado, 30 de junho

Tingimento com Pau-Brasil - sábado, 30 de junho

Tingimento Natural com ingredientes nativos - sábado, 14 de julho

Quem se inscrever antes do dia 20 de junho recebe um desconto de até 20% (dependendo do módulo escolhido).

// inspirações

flavia aranha
filme indigo
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