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Coleção de sementes

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Confesso que me sinto um pouco acumuladora no que diz respeito às plantas comestíveis. Hoje na minha cozinha tem alecrim e sálvia na água para enraizar, buquê de ervas aromáticas secando, cascas de cebola guardadas para tingimento, raspas de limão desidratando, algumas sementes em uma estufa improvisada e outras sementes esperando para serem armazenadas. Aqui já é rotina separar e cuidar das diversas partes das frutas, legumes e ervas, evitando ao máximo o desperdício. 

Tenho esse costume de pensar ao contrário, de procurar outras possibilidades pros gestos automáticos do dia a dia. Foi assim que eu comecei a colecionar sementes. Um dia comi um tomate muito saboroso, e pensei que era aquele tomate que eu queria plantar e comer de novo um dia. Comprar mudas em potes plásticos ou envelopes de sementes não são as únicas possibilidades que existem. Você paga para produzir algo de que nunca sentiu o gosto, que é um pouco genérico pra você. Não é errado comprar sementes ou mudas, mas começar uma seleção própria, com o que você comer de especial, tem muito valor. 

As sementes têm tanto potencial guardado em pouco espaço que desperdiçá-las não é aceitável. Ainda que sejam biodegradáveis e compostáveis, não gosto da ideia de enviá-las para o lixo. As sementes são tão presentes na nossa vida que a gente banaliza, perde a capacidade de enxergá-las. Mas se a gente exercita o olhar, percebe que boa parte das frutas e vegetais que usamos na nossa alimentação tem sementes fáceis de recuperar, que podem dar origem a novas plantas e voltar para o prato: tomate, pimentão, abóbora, abacate, maçã, uva, etc.

Mesmo com poucos espaços pra plantar, sempre gostei de manter alguns vasinhos, alguma vida acontecendo na minha morada. Me inspiro muito com o ativismo resiliente da jardinagem urbana, que é comprometido com a autonomia, com o uso inteligente dos recursos e que busca a reconexão com a produção de comida. Cuidar das sementes é uma ação muito importante nesse movimento, já que elas garantem um futuro autosuficiente. A natureza da semente é virar semente - germinar, desabrochar em flor, produzir o fruto e dar novas sementes. A gente precisa semear, cuidar e esperar crescer, e depois começa tudo de novo. 

Mas eu não apresento nesse post nenhuma novidade, recuperar sementes sempre foi a única forma de produzir comida. As famílias selecionavam as melhores sementes, que se desenvolviam melhor no solo e no clima da propriedade. A novidade é ter que pagar por semente, isso ataca a soberania alimentar, ameaça a diversidade e, o mais grave, gera dependência e dívidas. Se a gente não pensa sobre esse assunto, acaba achando aceitável que sementes sejam patenteadas pelas grandes corporações ou que a gente produza no Brasil com sementes que vêm da China, adaptadas a um ambiente completamente diferente do nosso. 

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// como fazer

Na prática funciona assim: quando estou preparando o jantar já vou deixando de lado as sementes enquanto pico os legumes. Depois coloco em um pratinho de cerâmica para secar durante alguns dias. Quando elas já estão bem secas, guardo em uma embalagem de vidro reutilizada e anoto no meu caderno a variedade da planta e a data. Você também pode etiquetar diretamente. É importante sempre guardar a data porque as sementes com mais de dois ou três anos vão perdendo sua capacidade de germinar. 

Evite guardar suas sementes em envelopes de papel ou embalagens plásticas. Assim elas podem atrair bichinhos, que conseguem comer essas embalagens. Se você não tiver outra opção, pode experimentar guardar ervas aromáticas, como o louro, junto para evitar que os bichinhos apareçam para devorar suas sementes. 

Quando a gente começa a prestar atenção nas sementes, percebe o quanto elas são abundantes. Seus vasinhos de ervas na cozinha, sua plantação na varanda ou a horta comunitária do seu bairro podem não precisar de tantas sementes quanto você é capaz de guardar. Ou talvez, você resolva salvar sementes sem nem ter acesso a uma horta. A regra é compartilhar, multiplicar. 

Existem grupos de trocas de sementes e mudas, você pode procurar nas redes sociais ou perguntar para amigos pelas versões presenciais. Com terra e argila, você pode fazer bombas de sementes e fazer crescer mais plantas em terrenos abandonados da sua cidade.

Lembre-se que esse é um projeto de muito longo prazo, um trabalho que não dá resultados instantâneos. Por outro lado, é extremamente simples, demanda quase zero trabalho e não depende de dinheiro. Colecionar sementes quebra a crença de que para criarmos algo, precisamos antes comprar ou investir dinheiro. Depois, é só aproveitar a alegria de ver suas sementes germinando, e te dando comida de volta. 

// inspirações

jardinagem ativista
navdanya
seeds of freedom
le semeur

 

 

Tingimento natural com Flavia Aranha

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Eu ainda estava na faculdade quando ouvi falar do trabalho da Flavia Aranha pela primeira vez. Quando ela começou, a gente ainda não tinha no Brasil nenhuma referência de marca de moda com valores éticos e de sustentabilidade. A Flavia combina roupas de desenho durável com tingimento natural, criando uma marca coerente onde toda a cadeia de produção é pensada para priorizar relações de comunidade, saberes tradicionais e qualidade. Eu gosto muito de acompanhar as viagens de pesquisa dela pelo interior do Brasil no instagram, a investigação sobre plantas e processos manuais parece ser parte intrínseca do seu trabalho de criação.

No final do ano passado, quando eu já estava com viagem marcada para o Brasil, fui convidada para assistir a uma das oficinas que ela realiza em seu ateliê, chamada "tingimento natural têxtil no contexto urbano". Essas oficinas são um lindo desdobramento do trabalho da marca, surgiram da vontade da Flavia em compartilhar seu conhecimento pra fortalecer o mercado e trazer mais pessoas pra perto dessa técnica que ela estuda há tanto tempo. Fiquei muito animada porque já tinha feito uma primeira tentativa totalmente experimental com tingimento e também porque seria mais uma oportunidade de praticar o fazer manual. ⠀

// o tingimento

Fui direto do aeroporto para a oficina e o conteúdo do curso era tão interessante que nem senti cansaço. Começamos o dia com as apresentações (amo essa parte!) e eu contei que o meu maior interesse na oficina era de desenvolver autonomia pra fazer mais com as mãos e pra me educar sobre o processo (eu constantemente faço esses experimentos pra não esquecer que tudo precisa de grande quantidade de energia para ser feito). Muitas das minhas colegas tinham motivações parecidas e quando chegou a vez da Flavia se apresentar, ela reforçou que o entendimento disso muda completamente a forma com que a gente se relaciona com um produto, da forma de comprar até a forma de cuidar. 

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Ela nos fez pensar sobre a ironia de que embora o tingimento sintético e as fibras sintéticas sejam relativamente novas em comparação ao conhecimento secular do tingimento natural, a gente esqueceu completamente como era feito antes e passou a enxergar o sintético como única possibilidade para manter um sistema de produção veloz e crescente, mesmo que isso implique a degradação do meio ambiente. Flavia é consciente do impacto dos seus processos e nos lembra que ele existe em tudo. Com o tingimento natural não é diferente, ele usa bastante água, por exemplo. Para ela, é uma questão de escolher e de se responsabilizar pelas consequências. Eu simpatizo com marcas que reconhecem seus limites e oportunidades de melhora.

Pra Flavia, o tingimento natural não é apenas um método para transformar o tecido sem cor em um tecido colorido, mas também é uma conexão de vários saberes - da química, da física, da botânica e também da antropologia. O lugar influencia a escolha dos pigmentos e o que eu acho mais legal (de longe!) é a possibilidade de tingir com materiais que a gente tem à mão, que são familiares pra gente. O nome da oficina evidencia o contexto urbano, porque acontece na cidade, mas tudo é adaptável para realidades diferentes. Essa oficina é uma oportunidade de criar o próprio caminho. Eu, por exemplo, gosto de descobrir as cores das plantas que são de comer mas também de tingir como o café e a cúrcuma, mas o que faz meus olhos brilharem é a possibilidade de transformar sobras em matéria prima, como é o caso da casca da cebola e da casca da jabuticaba. 

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Acho legal lembrar que esse conhecimento pode também sair do contexto da moda e ir pra decoração, ou deixar de lado a fibra dos tecidos e ir para a madeira, papel, palha, e até comida (por que não?). Um curso desses te dá ferramentas pra criar peças novas ou pra dar vida nova àquelas que já estão um pouco desgastadas. Eu, com certeza, vou querer testar todas essas possibilidades. 

// a experiência

Ao longo de dois dias, produzimos uma cartela com 10 cores em tons de rosa (pau brasil, jabuticaba, crajiru, jatobá e catuaba), amarelo (cúrcuma, urucum e cebola amarela) e verde (erva mate e cebola roxa). Aprendemos a fazer sabão natural para limpar a fibra (purga), como fazer com que as fibras se relacionem melhor com os corantes (mordente), fizemos os extratos com as plantas. Finalmente, já no segundo dia, começamos a tingir nossas amostras em quatro materiais diferentes. Também tivemos um projeto individual, onde cada uma de nós tingiu um lenço de algodão orgânico.

Sentir o calor da água fervendo nas panelas, fazer tudo com calma e cuidado e ver a transformação das plantas em tinturas é participar de uma experiência sensorial que pode gerar vínculos afetivos com o método e com o objeto tingido. É o caso do vestido do casamento da Flavia, comemorado com um almoço em sua casa. Ela nos contou que usou restos da preparação do almoço pra tingir um vestido branco que usou no dia. Quando pensamos no tingimento das nossas próprias roupas, criamos uma intimidade e uma troca com a matéria prima.

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É preciso saber que o processo do tingimento natural é vivo, quer dizer, ele está suscetível a diferenças de tom entre uma leva e outra. Cada planta é diferente, tudo vai depender de onde ela foi cultivada, como estava o clima, quanto de água e sol ela recebeu, se foi exposta a agrotóxicos, etc. O tecido tingido também pode queimar no sol e desbotar. Esses efeitos fazem parte do trabalho com pigmentos que têm origem na terra e não no laboratório. Podemos escolher apreciar o imprevisível como qualidade. 

// datas

As inscrições para o novo ciclo de cursos de tingimento natural já estão abertas com conteúdo e valores revisados. Serão três experiências diferentes, entre junho e julho, no ateliê da marca em São Paulo. Todos os cursos são ministrados pela própria Flavia Aranha. 

Impressão Botânica em Têxteis - sábado, 30 de junho

Tingimento com Pau-Brasil - sábado, 30 de junho

Tingimento Natural com ingredientes nativos - sábado, 14 de julho

Quem se inscrever antes do dia 20 de junho recebe um desconto de até 20% (dependendo do módulo escolhido).

// inspirações

flavia aranha
filme indigo
whole
utopiar

 

 

Meu primeiro post

Na minha vida, nada acontece de um dia para o outro. Todos os dias eu aprendo alguma coisa, enxergo um novo aspecto e até dou um passo pra trás, quando percebo algo equivocado. Assim, vou colocando em prática, no meu próprio tempo, uma forma de viver mais próxima do que acredito. Esse é o meu jeito de resistir ao que eu percebo de errado no mundo.

Essa jornada começou cedo. Tive meu primeiro contato com o vegetarianismo e suas motivações éticas com apenas 13 anos e então decidi parar de comer carne. Fui tomando tempo para aprender a cozinhar vegetais, para entender como me relacionar com o outro sendo vegetariana cercada de pessoas que não eram, para estudar quais ingredientes de origem animal poderiam estar escondidos nos produtos industrializados, etc. Minhas investigações nunca pararam, elas foram se relacionando com outros temas e me mostraram, por exemplo, a relação entre comer orgânicos e cuidar do meio ambiente ou entre simplificar a rotina de beleza e desenvolver autonomia, etc. 

Trouxe para mim a responsabilidade de fazer diferente e assim fui adquirindo novos hábitos e revolucionando os antigos. Procurei conhecer pessoas, participar de vivências e ler muito para aprender cada vez mais e redefinir os meus critérios de escolha. No momento em que me senti à vontade com esse caminho, foi natural que ele se refletisse no meu trabalho e foi assim que criei a Canna, minha antiga marca de bolsas veganas. Além da matéria prima vegana, os produtos eram feitos com mão de obra justa e tinham um desenho atemporal, pensado para durar além dos ciclos efêmeros da moda.

Falar por muitos anos sobre minhas escolhas de vida, em nome da Canna, me fez perceber que tudo que eu tinha estudado também era muito relevante para outras pessoas, e que eu poderia seguir compartilhando minha visão, mesmo sem o apoio de um produto. Comecei mostrando um pouco da minha busca nas redes sociais, depois a escrever em colaboração com outros sites e até criei a minha newsletter.

Divido minhas reflexões sobre estilo de vida consciente com um olhar questionador, que é ao mesmo tempo entusiasmado com ideias transformadoras e cético para não se deixar enganar e iludir. Também gosto de provocar as pessoas a serem mais protagonistas de suas escolhas, incentivando-as a refletirem, a sairem do raso e a fazerem as perguntas certas. Pra mim não é o caso de encontrar soluções mirabolantes, mas de repensar de forma simples como estamos vivendo e queremos viver. Eu acredito cada vez menos nas regras dos rótulos e mais na liberdade de poder escolher sozinha.

Sabendo que o que importa não é o destino, mas sim a forma de caminhar, vou abastecer esse blog com relatos das minhas andanças, com histórias de pessoas inspiradoras e com as minhas referências. Também vou publicar receitas de comidas veganas e produtos de beleza natural. Vou deixar de fazer posts gigantescos no Instagram e colocar essa energia aqui, onde o conteúdo estará sempre organizado e disponível pra consulta. Por enquanto continuo presente nas redes sociais, mas devo postar conteúdos mais rápidos e informações curtas. A newsletter, meu lugar preferido na internet, continua chegando no e-mail com frequência (quase) mensal, trazendo um conteúdo diferente do blog, mais espontâneo, com percepções e reflexões do meu cotidiano. 

A partir de agora, a gente se encontra aqui para trocar descobertas e aprender juntos. E é muito importante que a gente passe a interagir nesse espaço também, eu sempre respondo comentários e e-mails pra gente aprofundar e trocar percepções. Espero sua próxima visita!