receita

Vinagre caseiro de maçã

Eu carrego comigo o desejo de ter mais autonomia no meu cotidiano. Morando na cidade, longe da terra, não consigo desenvolver tanto essa independência, mas eu gosto de pensar que ao invés de comprar tudo pronto, posso tentar aprender a fazer o que preciso e assim depender cada vez menos dos mercados, das embalagens, demandar menos matéria prima e combustível de deslocamento. Tirar a produção da indústria, de longe, e trazer pra dentro de casa já é dar alguns pequenos passos. 

Quase sempre, essa busca vem acompanhada de outros benefícios. Quando ela se encontra com a redução do lixo ou do desperdício de alimentos, por exemplo, me ganha por completo. E isso mostra a beleza no processo, que está além de ver surgir o produto final. Em alguns casos, o processo pode não se encaixar na rotina e acabar sendo deixado de lado, mas aprender a fazer já me deixa feliz. É como desenvolver um super poder. 

E eu invisto no aprendizado de novas habilidades, não nasci com nenhum conhecimento especial, então eu faço cursos, compro livros, assisto vídeos e também leio as experiências de outras pessoas em blogs. Cada novo fazer que eu descubro abre um universo totalmente novo pra mim. Essa receita, de vinagre caseiro, foi meu primeiro contato solo com a fermentação. É claro que eu consumo vários alimentos fermentados (pão, tofu, kombucha, molho de pimenta, etc…) mas a técnica era desconhecida pra mim, e com certeza vou continuar aprofundando nesse assunto daqui pra frente. 

Confesso que mexer com bactérias (esses seres invisíveis que podem ser do bem ou do mal) ainda me assusta um pouco, por falta de conhecimento mesmo. Como fazer dar certo a transformação de um alimento pela fermentação? Existem várias técnicas e eu te encorajo a encontrar a que você mais gosta. Estou só no começo do aprendizado, misturei as direções de várias receitas e conto abaixo o que funcionou pra mim.

// a receita

Eu gosto da possibilidade de alterar receitas de acordo com o que se tem disponível, então já aviso: você pode fazer seu vinagre com a maçã inteira, só com a casca, só com o coração ou com algumas das partes. Eu fiz com restos de maçã que cortei para uma sobremesa, pois sempre como a fruta inteira e não sobra nada pro vinagre. Você também pode ir congelando os pedaços e começar o vinagre só quando tiver uma boa quantidade. É possível fazer esse vinagre com várias frutas como abacaxi, goiaba, pêra, morango, etc.

A fermentação dessa receita vai acontecer pela presença do açúcar, no método de fermentação selvagem, ou seja, sem a necessidade de um "starter", algo que comece o processo. Os microorganismos presentes no alimento e no ambiente é que vão fazer o trabalho. Ainda que adicionar um pouco de vinagre que já tenha desenvolvido uma mãe (clique aqui caso você não saiba o que é a mãe de um vinagre) possa acelerar o processo, eu não coloquei nada além de maçã, açúcar e água. 

Normalmente a água da torneira não é recomendada por ter muito cloro, que dificulta o crescimento de bactérias. Eu decidi fazer com ela e mesmo assim funcionou. Se você puder filtrar ou ferver antes, mais chances de dar certo! Os agrotóxicos também podem alterar a fermentação, melhor usar frutas orgânicas.

// equipamentos e ingredientes

1 pote de vidro com boca larga
1 pedaço de pano ou gaze
1 elástico ou pedaço de barbante
1 xícara de sobras de maçã
3 xícaras de água
1 colher de sopa de açúcar  

Em um pote de vidro com boca larga, dissolva o açúcar na água e depois misture os pedaços de maçã. Cubra a boca do pote com o pano e prenda com o elástico, assim o ar pode entrar e qualquer mosquinha que aparecer fica de fora. Deixe sua mistura reservada em um armário escuro por 3 a 4 semanas. Nesse período, vão surgir bolhinhas na superfície, um indício de que o vinagre está pronto é quando essas bolhinhas sumirem. Pode filtrar o vinagre com um pano e colocar em uma nova garrafa esterilizada com tampa. 

É importante saber que a minha cozinha tem bactérias diferentes da sua, então o tempo de fermentação pode variar. Por isso, é preciso ficar de olho, acompanhar e cuidar do seu experimento. É um processo participativo. Nada que te tome muito tempo, mas não é só ligar um botão e esquecer.

Se aparecer mofo, quer dizer que algo deu errado, e você vai ter que descartar toda sua mistura. Não tem como aproveitar. Nas minhas duas primeiras tentativas, com casca de abacaxi, aparecerem fungos. Desconfio que seja porque o abacaxi aqui vem de muito longe, e pode ter trazido fungos indesejados na casca. 

Eu não sabia o que indicaria que o meu vinagre estava pronto, o aroma bem característico me deu pistas, mas eu ainda estava insegura. Fiz um teste caseiro de pH com repolho roxo, e ele mostrou que o vinagre está ácido, é suficiente para o uso que eu vou fazer dele. Caso você pretenda fazer conservas com esse vinagre, vai precisar testar com mais precisão, com uma fita medidora, e atingir um pH menor que 4.

// inspirações

zero waste chef
autonomia project
sandor kraut
neide rigo