Carta #27 | enquanto esperamos a volta à normalidade

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Olá,

 

Ainda essa semana enviei uma carta falando sobre como pode ser difícil pra mim falar sobre sustentabilidade em meio ao caos e aos diversos conflitos do nosso tempo. Ironicamente, hoje me deu vontade de falar sobre a crise de abastecimento no Brasil, então voltei aqui para escrever mais uma carta. 

 

Sem entrar no mérito de quem está por trás da paralização dos caminhões (ainda que eu recomende fortemente que você procure saber…) ou da legitimidade desse ato, resolvi mergulhar em questões anteriores que podem nos ajudar a pensar sobre outras possibilidades pro futuro.

 

A comida não chega quando o abastecimento de gasolina é interrompido porque estamos inseridos em um sistema completamente dependente, baseado na escassez. Dentro dessa lógica, produção e consumo são dois universos desconectados e que só se encontram quando existe uma troca monetária. Para que essa troca aconteça é preciso que os alimentos sejam transportados do campo até as cidades, onde está a maior concentração de pessoas e, consequentemente, de dinheiro. Hoje no Brasil o transporte é feito por via terrestre, sujeito à disponibilidade de combustível fóssil.

 

Esse sistema está constantemente em risco. Mudanças climáticas, desvalorização da moeda e variação do preço do petróleo no mercado internacional são alguns exemplos. Quando li o livro The Transition Handbook, que é um guia da transição da dependência do petróleo para a resiliência local, entrei em contato pela primeira vez com a teoria do "Peak Oil". Não sou especialista mas é claro que eu sabia que o petróleo era um recurso esgotável. Eu só não imaginava que o petróleo barato e disponível, como conhecemos hoje, poderia não ser a realidade de um futuro tão próximo.

 

Hoje, a discussão é sobre o preço, mas ignoramos o fato de que o petróleo um dia vai acabar, e não vai demorar para isso acontecer. Quando ele se tornar escasso, o preço vai subir para todo o mundo. Se não nos prepararmos para esse momento, enfrentaremos um apocalipse. O que vimos nesses 5 dias é uma amostra do que pode vir a ser. As sugestões do livro nunca fizeram tanto sentido para mim.

 

Concentração da produção, desperdício e dependência não são uma boa combinação pro futuro da nossa alimentação. É preciso desenvolver, priorizar e fortalecer a produção local. Se nós temos garantida a capacidade de produzir o que precisamos por perto, não ficamos tão sujeitos à flutuação da economia e à paralização de uma categoria da sociedade. O problema está mais próximo do que poderíamos imaginar e falar sobre como a comida é produzida e distribuída deveria ser do interesse de todos os que precisam comer.

 

Mas é possível desenvolver a autonomia alimentar em grandes centros urbanos? Não é uma tarefa fácil, exige muita movimentação e colaboração. Separei algumas ideias e projetos ligados a elas pra te ajudar a ver materialidade nesse conceito.

 

// participar de uma horta comunitária: Horta das Corujas, Horta CCSP, Horta de Calçada Cristo Rei.

 

// depender menos de insumos externos (pesticidas, fertilizantes) com a agroecologia urbana: Instituto MUDA, Jardineiros Agroecológicos, Perma Perdizes.

 

// estimular o consumo de alimentos inseridos no contexto urbano mas que não são valorizados comercialmente como as panc's (plantas alimentícias não convencionais): Mato no Prato, Bruna de Oliveira, Neide Rigo, Guia Pratico de Panc do Instituto Kairós.

 

// produzir o próprio solo por meio da compostagem: Morada da Floresta, Ciclo Orgânico, Re.ciclo.

 

// cuidar das abelhas, essenciais para a produção de alimentos: SOS Abelhas sem Ferrão.

 

// proteger a liberdade de replantar sementes com bancos de sementes nativas.

 

// valorizar os alimentos nativos: Instituto Auá, Instituto Socioambiental.

 

// apoiar e sustentar pequenos agricultores orgânicos com a compra coletiva: Quitandoca, CSA Brasil.

 

Pensando em outros bens de consumo, para além do assunto da alimentação, encontramos outras iniciativas que promovem a autonomia e a resiliência. Os projetos que trabalham com matérias primas de reuso ou as redes de troca e compartilhamento são alternativas possíveis.

 

É um passo em direção à transição. Para que os produtores lá no começo da cadeia não sejam prejudicados com sua produção perdida sem escoamento. Para que a gente não tenha que abater animais porque eles estão praticando canibalismo. Para que a gente não sofra as consequências de um pânico coletivo. É verdade que em uma crise como a enfrentada pelo Brasil hoje, essa proposta não dá conta da distribuição de medicamentos, da coleta de lixo e do funcionamento do transporte público. Mas quem sabe, com o poder menos centralizado, nosso poder de barganha seria maior.

 

Se eu fosse a Bela Gil, diria que você pode substituir as compras no supermercado pela contribuição em uma horta comunitária. Já é um começo muito bonito.

 

Beijos,

 

Fê Canna

Carta #26 | momento de ouvir e momento de falar

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Olá,

 

Faz muito tempo que eu não apareço aqui na newsletter, eu sei. Eu mal reparei e já se passaram 5 meses sem nenhuma palavra enviada para vocês. Eu prometi que nosso contato por aqui não ia acabar agora que eu tenho um site com os meus conteúdos, mas desde então não enviei nenhuma carta nova. Já adianto logo aqui no primeiro parágrafo as minhas desculpas.

 

Hoje eu estava lendo a newsletter que a Dana do Wild We Roam escreve (toda semana, pasmem!). Falando sobre o que a consistência da escrita da newsletter trouxe, ela disse que não é uma pessoa super regrada mas que estava sendo legal pra ela manter essa frequência de newsletters. Eu acabei me lembrando do motivo pelo qual iniciei uma lista de e-mail e fiquei com saudades dessa nossa troca mais íntima, das nossas conversas tão gostosas.

 

Se eu criei esse espaço, que é só nosso, e que não depende de terceiros pro conteúdo chegar até vocês (e isso é importante pra mim), então não faria sentido eu sumir e não mandar mais notícias. Acontece que a gente tem passado por momentos obscuros, estamos afundando em notícias muito ruins e, confesso, isso me faz quase perder a vontade de falar sobre levar uma vida mais calma, onde o autocuidado e o cuidado com o mundo são importantes.

 

Conversando com uma colega de classe, experimentei um silêncio profundo em mim. Ela é de um país onde faz -5ºC no inverno e a população, por um conflito geopolítico, não recebe gás suficiente para ligar seus aquecedores no inverno. Ela falou que é difícil pensar em questões envolvendo o meio ambiente ou o consumo consciente por lá.

 

A gente pode se assegurar de que o papo sobre educação ambiental é imprescindível pra mudar o presente e o futuro, pois as mazelas sociais estão diretamente ligadas à problemas ambientais, um influencia o outro. Mas eu posso entender quando ela diz que faltam forças. A realidade dela é distante pra mim, mas com certeza não me faltam exemplos paralisantes como esses.

 

Eu compartilho desse sentimento mesmo estando em uma posição muito mais confortável. E por mais que eu acredite no poder transformador da consciência, tem algo de humano em mim que me faz ficar quietinha. Querer ouvir mais do que falar. Posso passar meses em momentos de ouvir, esperando a hora do momento de falar.

 

Mas são exemplos de pessoas que continuam resistindo, e não apenas existindo, que me reconfortam na falta de esperança e me inspiram a continuar. No fim, penso que mais importante do que mostrar que conseguimos fazer coisas boas, promover mudanças, é mostrar que somos todos humanos tentando fugir de uma vida robotizada e automatizada.

 

Além do mais, sempre me questiono se o tema que eu vou trazer aqui é relevante pra todo mundo, se vale o espacinho na caixa de e-mail de vocês. É porque sou insegura e perfeccionista, mas vamos deixar uma coisa já pré combinada? Se hoje meu conteúdo não te agrada, é só pular e voltar outro dia. Com esse acordo, quem sabe, eu me cobre menos e esteja mais presente por aqui. Se o espaço é de reflexões, como um diário compartilhado, o espaço para errar também está aberto e garantido.

 

Bom, se eu for esperar eu estar bem, o planeta estar bem, não vou aparecer por aqui nunca. Então quero dizer que por hora estou de volta, e espero ouvir de você. Minha caixa de e-mail está sempre aberta para receber respostas, para receber visões diferentes ou complementares.

 

Beijos,

 

Fê Canna

Carta #25 | sem rótulos

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Sabia que eu tenho uma dificuldade imensa de me apresentar em poucas palavras? Acho que o meu desinteresse por rótulos é uma escolha inconsciente de me afastar do que é definido - e de não querer enquadrar a minha personalidade em uma caixinha. Eu penso que colocar uma etiqueta nas minhas vontades teria um efeito restritivo indesejado. E uma vez que eu escolhi compartilhar esse meu modo de ser, eu sentiria que adotar um desses rótulos seria como reivindicar uma imagem de perfeição que está longe da realidade.

Em um mundo complexo, fazer escolhas pode gerar ansiedade quando nossas referências são os ícones de perfeição, donos da verdade. E já faz um bom tempo que venho colocando mais atenção nas minhas escolhas, cada vez mais consciente do impacto delas. Comecei tirando as carnes do cardápio, depois passei a ler as listas de ingredientes dos cosméticos, e mais recentemente a prestar atenção na quantidade de desperdício pelo qual sou responsável. Eu não fiquei parada em um desses pontos porque pensando no todo, não fazia sentido seguir esses caminhos separadamente.

Eu poderia vestir o uniforme do desperdício zero e usar um pote de vidro para guardar o meu lixo anual, mas eu também me preocupo em consumir produtos veganos, que venham de perto e de pequenos produtores. Nem sempre consigo que todos esses atributos sejam preenchidos. Como a gente define nossas prioridades quando temos alguns segundos no mercado pra escolher? É normal que a gente não tenha todas as respostas tão à mão quanto a lista de compras, ninguém tem. E a falsa ideia de que essa resposta existe não está tornando a nossa vida mais fácil.

Eu não estou escrevendo isso só como desabafo pessoal, muita gente me escreve porque não consegue fazer o que acha suficiente. Pode ser que você esteja nessa situação também. Por mais que eu repita que é melhor começar com o que está mais fácil, eu sei que a gente vai paralizar em algumas escolhas. Às vezes a gente simplesmente não tem ideia de qual é a escolha menos pior pro mundo. Se todas essas nossas preocupações são ambientais (pra não dizer também sociais, e econômicas) é difícil mesmo entender porque elas não andam juntas com mais frequência.

Torço por uma comunicação da sustentabilidade que seja mais realista e flexível do que a dos rótulos. Saber que a gente vai falhar em algum momento nos torna mais resilientes e faz com que a gente siga em frente, em vez de ser parado pela culpa. E é melhor fazer algo do que não fazer nada porque ficou parado no medo de não acertar.

Tudo isso se relaciona com essa minha nova fase. Sem rótulos, fico livre pra aprender, pra questionar, pra tentar, pra voltar atrás se precisar. Meu site novo tem um blog onde vou mostrar os meus percursos, as histórias que me inspiram e contar como é o meu processo de escolha, quem sabe faz sentido pra mais alguém. Como assinante dessa newsletter você vai ter a chance de ver primeiro. Clique para abrir:

 
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Vou adorar saber o que você achou, sugestões e críticas serão muito bem acolhidas. E não é porque agora tenho um site para organizar todo o meu conteúdo que essa newsletter deixa de existir. Continuamos esse papo mais pessoal por aqui. Se você chegou agora pode ler todas as cartas passadas nesse endereço aqui. E sempre pode responder esse e-mail para continuarmos nossa troca. Seja bem-vinda!

Beijos,

Fê Canna

Carta #24 | porque meus amigos querem ir morar “no mato”?

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Fui criado no mato e aprendi a gostar
das coisinhas do chão — 
Antes que das coisas celestiais.
— Manoel de Barros

Essa semana vi muitos amigos dizendo que querem ir morar “no mato”, ir em direção ao interior, fugir da cidade e vivenciar o êxodo urbano. Principalmente aqueles que ainda vivem em São Paulo, mas não só eles, todos que se sentem um pouco enganados pelas promessas da cidade grande. É que a gente, já me incluindo nessa, não tem encontrado felicidade no asfalto e tem achado muito duro conviver com certas pragas urbanas, como a falta de tempo e as vidas que se perdem no trânsito.

A gente quer plantar, a gente quer fazer pão, quer ver a chegada das novas estações, quer encurtar distâncias, quer comer fruta do pé, quer viver com menos. Quer construir, fazer, colher, cuidar, contemplar, moderar, cultivar, acreditar ao invés de comprar, correr, repetir, consumir, acelerar, duvidar, fugir, reclamar.

A sensação de resiliência, longe dos grandes centros urbanos, é atraente. É que na cidade não existe o movimento de adaptação, na cidade a gente precisa sempre da mesma coisa, ou de mais da mesma coisa, nunca de outra coisa, ou de menos dessa coisa. E essa coisa é o dinheiro, já que na cidade a gente não produz o que precisa diretamente. A gente converte horas de trabalho em papel, ou dinheiro virtual, e nosso bem estar passa a ser atrelado diretamente com o quanto ganha em um ciclo insalubre e insustentável.

Aliás, no campo a natureza ainda determina como devemos trabalhar e quanto tempo dedicaremos ao trabalho. Na natureza tem a hora de plantar e a de colher. Tem a época de uma coisa e a época de outra. Tem a época de não plantar nada, mas de preparar o terreno, consertar as cercas, separar as sementes, fazer as conservas.

Mas a cultura de alimentos é só um exemplo de trabalho que pode ser feito a partir do campo, não é o caso de todo mundo virar agricultor se não quiser. Mas ter seu espaço pra plantar pode ser muito útil para garantir um pouco de autonomia alimentar, compreender e valorizar a origem dos alimentos e aprender a respirar em outro ritmo. O que as pessoas que já fizeram esse caminho encontram, é a ressignificação do tempo dedicado ao trabalho, um novo olhar sobre o cuidado consigo mesmo e com o mundo.

Quanto a mim, eu tenho experimentado esse caminho que tá quase no meio, entre a metrópole e a província. Moro em uma cidade que não é gigante como a cidade em que nasci. Com apenas 350 mil habitantes, dá pra atravessar a minha nova cidade caminhando, mas tem tudo que alguém pode precisar, desde o contato com a natureza até as opções culturais. Ainda assim, sinto falta de mais espaço, de uma terra pra plantar que não esteja no vaso.

Será que tem alguém lendo essa carta que fez essa mudança recentemente? Ia adorar saber como foi sua experiência, me escreve?! E se você ainda está na cidade, sem planos de deixar essa história pra trás, o que você tem feito pra respirar?

// Esse texto foi escrito originalmente para a minha newsletter. Para se inscrever, clique aqui.

Carta #23 | por mais histórias

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Hoje a minha carta tem além de inspiração e um monte de links bons, uma novidade e um pedido. Então vale ficar e ler até o fim com carinho!

Descobri que tenho um jeito especial de contar histórias com a minha última marca, a Canna. Pra quem não me conheceu nessa fase, eu transformei um desejo que tinha como consumidora em uma marca que pudesse mostrar o veganismo para pessoas que ainda não tinham entrado em contato com o movimento. Além dos materiais veganos, as bolsas da Canna também eram feitas com mão de obra justa e tinham um desenho atemporal, ou seja, eram pensadas pra durar muito tempo, além dos ciclos da moda.

Falar por muitos anos sobre veganismo e minhas escolhas de vida, em nome da Canna, me fez perceber com clareza o que me move. Falo sobre estilo de vida consciente com um olhar questionador, que é ao mesmo tempo entusiasmado com ideias transformadoras mas cético para não se deixar enganar. Esses dias me disseram que faço “um ativismo profundo, aquele que é feito de escolhas muito pensadas, fruto de investigação e estudo”. Pronto, emocionei. É por aí mesmo, eu resolvi abrir esse meu olhar pro mundo porque espero que minhas reflexões reverberem por aí, pra incentivar quem está em volta a pensar e a transformar também.

Sem esconder nada, eu compartilho tudo que vejo de mais interessante, desde um novo projeto de compostagem até a forma como é extraída uma matéria prima ou a minha jornada na beleza natural. Pode ser aqui na newsletter ou nos textos que escrevo para outras plataformas. No instagram, especialmente, conto o que aprendi nos lugares em que estive: já mostrei uma destilaria de óleos essenciais selvagens, minhas visitas em fazendas orgânicas e também quando fui conhecer um restaurante que produz o próprio azeite de oliva e trabalha só com insumos locais.

Pelo caminho do aprendizado, estou sempre me transformando, e mudando a forma com que trabalho. Isso acontece em um tempo lento de quem faz tudo com muito carinho e atenção. Hoje vim pra contar que estou me dedicando a criação da minha própria página na internet. Lá vou reunir essas histórias todas e ampliar as reflexões e conversas. Com tudo organizado e sempre disponível, em um espaço tão nosso quanto essa newsletter (mas de portas abertas para quem mais quiser entrar, a qualquer momento). Já tem um endereço e o conteúdo ainda leva um pouco de tempo pra aparecer, mas não demora. E a newsletter continua, tá?

Agora vem o pedido que mencionei, vai dar pra entender todo esse papo focado em mim mesma que rolou lá em cima. Uma marca conhecida de cosméticos naturais e saúde holística lançou um projeto chamado Global Garden. Eles vão selecionar uma pessoa para conhecer todo o universo da marca, desde o cultivo das matérias primas até os projetos de desenvolvimento sustentável. Quem for escolhido vai fazer uma viagem imersiva de 3 meses, visitar os produtores e as fábricas, e contar o que viu pra comunidade da marca.

Nem preciso dizer que me identifiquei muito com a proposta. É aí que eu vejo meu caminho cruzar o das marcas, para tornar os processos mais transparentes pra pessoas. Tenho vontade de participar desse percurso e quero levar meu olhar crítico e atento pra eles. Seria um privilegio ter acesso aos campos de calêndula, de romã e arnica, mas também quero entender como os princípios do comércio justo e da sustentabilidade estão sendo aplicados em grande escala.

Pra ter a chance de ser selecionada, preciso conseguir ficar entre os 6 primeiros do Brasil em uma votação online até o dia 10 de setembro. Então pra poder mostrar como vejo o mundo pra eles, preciso da sua ajuda. O voto leva menos de dois minutos, precisa ser feito pelo site e depois confirmado clicando no link que eles enviam por e-mail. O caminho do voto é por aqui: http://bit.ly/votenafecanna

E bom, se não rolar, eu sigo contando histórias por aqui, entre a gente.

Carta #22 | desafio do julho sem plástico

Hoje eu moro perto do mar. Tenho uma proximidade com a natureza, com o oceano, com as aves e outros animais desse habitat que eu não poderia imaginar vivendo em São Paulo. Dia após dia, posso ver o lixo se misturando com a água, com a matéria orgânica, posso ver as gaivotas devorando sacos plásticos. Não quero te incomodar com números ou imagens terríveis, mas conviver com isso me trouxe um grande incômodo. 

Cada vez mais a gente vai ter que se relacionar com o lixo que a gente gera. Já não tem mais espaço no mundo pra que ele fique longe dos nossos olhos. Transformamos nossa casa em uma enorme lixeira e as consequências causam desconforto em todos os aspectos (social, ambiental e econômico). E o plástico é um dos piores tipos de lixo, é um material durável que utilizamos muitas vezes para fazer produtos descartáveis.

Quando a gente olha por aí, tudo parece ser feito de plástico. E não sei se você sabe, mas esse tipo de material não se degrada como os materiais orgânicos, ele permanece no mundo - flutuando nos oceanos ou suspensos na atmosfera em micro pedaços. Provavelmente, todo plástico já produzido continua aqui com a gente. E uma vez que já sabemos disso, é difícil continuar fazendo as coisas do mesmo jeito.

A ideia de reduzir a produção de lixo é fascinante pra mim e eu venho trabalhando ativamente pra diminuir meu rastro no mundo. Então quando fiquei sabendo da campanhaPlastic Free July (ou julho sem plástico, na tradução) achei que seria útil fazer o experimento, com a intenção de fazer alguns esforços extras e ainda falar mais sobre o assunto, encorajar quem está por perto. Mostrar que a dimensão do problema não deve nos paralisar. Fui documentando algumas ações desse mês lá no meu instagram; se você não viu, segue esse link.

Abracei o desafio recusando canudos, copos e talheres de plástico, saquinhos plásticos, produtos embalados e todo resto de materiais plásticos de uso único. Afinal, pra quê comprar água engarrafada se a da torneira também é potável e mais barata? Pra quê usar plástico bolha na mudança se podemos usar nossas roupas para embrulhar tudo? É muita energia e matéria-prima desperdiçada para virar lixo. 

É claro que eu tive momentos de frustração, como quando fui em um restaurante novo e ao pedir um chá gelado recebi um canudo já enfiado no copo de vidro. Um dos desafios é estar sempre alerta para recusar aquilo que você não precisa, tentando se adiantar à ação do outro. Mesmo que você consiga fazer isso toda vez, pode se deparar com o "esquecimento" de quem está atrás do balcão, afinal, é um pedido improvável para eles.

Nesse mês, ficou ainda mais evidente para mim que o plástico está assustadoramente em todos os lugares da nossa vida. Ainda que alguns desses plásticos sejam praticamente impossíveis de tirar da rotina, eu percebi que onde a gente menos precisa dele, é onde a gente mais consome rapidamente, fazendo escolhas automáticas. É assim quando vamos tomar sorvete, quando fazemos um piquenique com os amigos, é assim com o cafezinho no trabalho. 

Me policiar para não consumir plástico também me fez perceber que às vezes é preciso ponderar as alternativas para fazer a melhor escolha. Apesar de não ser maioria, em algumas situações me deparava com dúvidas como essas: devo escolher uma comida vegana embalada em plástico ou um sanduíche de queijo sem plástico? Compro a fruta à granel que veio de outro continente ou a local e orgânica da bandeja de isopor? Não dá pra se sentir mal com a escolha feita, as respostas não são muito claras em termos ambientais e vão depender muito das nossas crenças e vivências.

O ponto aqui não é ser perfeito, porque provavelmente não vai dar pra reduzir nosso consumo de plástico a zero nem nesse mês, nem no próximo. O movimento é de mostrar que o plástico pode ser a exceção, não a regra na nossa vida. E que uma vez na nossa mão, a gente deveria se encarregar da destinação correta desse material, em vez de jogar na praia ou na rua, achando que assim ele vai entrar em algum buraco mágico e desaparecer, ou de acreditar que a reciclagem será suficiente para desculpar nosso consumo descontrolado.

Se você quiser saber mais motivos pelos quais a gente deveria diminuir nossa produção de plástico, procure assistir ao documentário A Plastic Ocean, disponível no Netflix. E se animar a diminuir sua dependência de plástico, minha dica é que você comece recusando o que é mais fácil pra você. Pode separar uns 10 minutinhos pra olhar pra própria lixeira e fazer uma lista do dá pra abrir mão, se for ajudar. Pensa primeiro no que exige zero esforço, e vai movimentando em direção ao que parece mais complexo, um pouquinho por vez.

Depois me conta como foi sua experiência! Ainda tem muito assunto dentro desse tema pra gente conversar, minha caixa de e-mails tá sempre aberta, é só responder por aqui e seguimos trocando com calma. Se você chegou agora, seja bem-vindo/a/@!

Beijos,

Fê Canna

Carta #21 | beleza do bem em poucos passos

Já contei por aqui que meu interesse pela beleza do bem é consequência de uma atenção maior com a minha alimentação, um desdobramento da decisão de me tornar vegetariana e que me trouxe o desejo de entender melhor as escolhas que eu fazia.

Me parece sensato que o mesmo cuidado que eu tenho em escolher a minha comida, eu tenha com o que eu passo na pele. Quando eu fiz a conexão entre esses dois temas, beleza e alimentação, já tinha lido muitos livros e visto muitos documentários sobre nutrição e comida de verdade. Michael Pollan, Peter Singer, Carlos Petrini e a franco-brasileira Sophie Deram foram alguns dos nomes que influenciaram meus caminhos.

Eles tinham dicas e fórmulas simples para que eu pudesse tomar decisões de forma independente. E como autonomia sempre foi importante para mim, acabei desenvolvendo mecanismos facilitadores para escolher os produtos de beleza que entram na minha rotina. Abaixo, compartilho com alegria alguns desses aprendizados, quem sabe você também não adapta para outras áreas?

// Escolher produtos com menos ingredientes

Já percebemos a importância de ler o rótulo de alimentos industrializados e de questionar certos ingredientes. Mas como conferir a composição de esmaltes, maquiagens, perfumes e hidratantes se eles apresentam componentes com nomes tão complicados quanto “Methylchloroisothiazolinone“? Não é simples, mas é necessário para quem quer tomar decisões pensando na saúde e no meio ambiente.

Uma forma de evitar as químicas desnecessárias é aprendendo a identificar parte desses componentes, ter uma lista mental de alguns que gostaríamos de evitar. E também aprender a detectar os ingredientes naturais, como óleos e extratos de plantas.

Procurar por produtos com menos ingredientes é um bom começo. Especialmente quando se trata dos sem enxágue (como cremes e óleos perfumados), dos de uso diário (shampoos e sabonetes) e os que são aplicados muito perto dos olhos, mamas e axilas.

// Resgatar conhecimentos antigos

Eu aposto que o bolo da sua avó não levava xarope de glucose ou gordura vegetal hidrogenada. O processamento industrial torna a comida complicada e estranha ao nosso corpo.

Antigamente, nos tempos das avós (ou bisavós, dependendo da sua idade), além do alimento, também eram feitos em casa os tratamentos de beleza. Os produtos industriais eram caros e quando comprados, se usava em pouquíssimas quantidades.

A verdade é que não precisamos de um produto para cada área do corpo e podemos economizar bastante fazendo algumas receitas em casa à base de plantas, com ingredientes que vão da cozinha para o chuveiro.

// Evitar supermercados e farmácias

É nos supermercados que encontramos os maiores estímulos para o consumo de alimentos ultra-processados, abarrotados de açúcares e conservantes. Evitando esses centros de compras e dando preferências a feiras de produtores, podemos comprar ingredientes frescos e cheios de sabor, sem apelo publicitário.

Na farmácia e nas perfumarias é a mesma coisa: os produtos possuem muitos conservantes para estender sua vida nas prateleiras, além dos corantes e micro partículas plásticas para ficarem mais atrativos.

Nesses lugares, também somos convidados a comprar tudo embalado, produzindo uma quantidade enorme de lixo. Fazer produtos em casa ou comprar de pequenos produtores que têm preocupação com o aspecto ambiental pode ser o começo de uma mudança de comportamento.

// Esse texto foi escrito originalmente para o blog da minha amiga Nyle Ferrari (clique aqui pra conhecer!) e enviado na minha newsletter. Para se inscrever, clique aqui.

Carta #20 | consertar é participar da revolução da moda

No ano passado, me inscrevi em uma oficina chamada “coleção de pontos à mão” no Sesc Pompeia. Foi meio no escuro, o folheto não explicava direito a proposta. Chegando lá, a professora, Ofelia Lott, entusiasta da costura como antigamente definiu de forma linda sua intenção: “é preciso adestrar as mãos!”. E foi com esse espírito que a turma se debruçou na mala de mão que carregava infinitas amostras de acabamentos funcionais ou decorativos para roupas.

Eu sempre tive orgulho de saber costurar, é uma das habilidades que mais rendem no meu dia a dia, mas como proprietária de uma bela Singer 15C , tinha pouco interesse em uma costura mais lenta, sujeita a pequenos deslizes e imperfeições. Um processo diferente do que a máquina produz. Feliz, saí do curso com o universo expandido e uma coleção pessoal de pontos feitos à mão.

Uma das expressões mais bonitas e fortes que tenho visto acontecer na moda tem muita relação com permitir o que é impreciso e imperfeito, tem a ver com fazer à mão mas também com refazer. É o “visible mending”, que a gente pode combinar de chamar de reparo visível. Gente muito apaixonada pelo fazer manual e por cuidar das suas roupas como Tom Van DeijnenJerome Sevilla (da foto aí em cima) e Katrina RodaBaugh têm vestido com orgulho suéteres cerzidos e jeans remendados.

Eles fazem os consertos com a intenção de aparecer mesmo, como uma medalha que reafirma o que aquela peça viveu. Não importa se ela foi feita à mão ou de forma industrial, se foi cara ou barata, ela merece ser cuidada e reconhecida. Assim, vão cultivando uma relação não descartável com a roupa, em busca da cultura do reparo, que deixamos sumir recentemente. É o oposto da moda que se renova todos os dias no fast-fashion, do vício pela novidade que gera uma total indiferença com as memórias.

E é subversivo porque existe um espírito ativista. É um protesto que se faz ouvir com gentileza e provoca questionamentos. Pra mim esse é o lado mais interessante, porque ver as pessoas fazendo isso me inspira a dar valor ao que eu tenho. Me dá ainda mais vontade de colocar esforço em fazer as coisas durarem e evitar o quanto possível o destino ao lixão.

Essa semana acontece a Fashion Revolution Week, uma das ações de um movimento global que vem chamando atenção para uma necessária mudança na forma como fazemos e consumimos moda. E pra mim tá claro que quanto mais envolvimento tivermos em cada um dos ciclos do produto, mais a gente vai fazer parte dessa transformação que olha com respeito pra quem faz e pra matéria prima.

Vamos falar mais sobre a moda que a gente quer? Me conta se você tem se engajado em algum projeto nesse sentido!

Carta #19 | qual é o papel da mulher na sustentabilidade?

Semana passada, nós mulheres reinvidicamos nosso espaço. Na rua, no mercado de trabalho, nas universidades, na ciência, temos o direito de estar em todos os lugares e lutaremos por ele.

Esses dias me fizeram uma pergunta e eu tive que pensar um pouco pra responder: “Qual o papel da mulher na sustentabilidade?”. Precisei de um tempo para perceber que a maior parte do conteúdo que chega até mim sobre esse tema é realizado por mulheres. Então decidi mandar essa carta em um formato diferente e compartilhar alguns trabalhos que mostram que a mulher também tem espaço na sustentabilidade e seu papel é amplo e muito importante. Fique à vontade pra clicar nos assuntos que te interessam mais!

// O papel da mulher é cuidar.

Nesse vídeo, a futurista Lala Deheinzelin diz que se a gente conseguir responder à pergunta “você cuida de quê?”, quer dizer que estamos preparados para o futuro.

// O papel da mulher é cozinhar.

O primeiro episódio da nova temporada de Chef’s Table (na Netflix) mostra a abordagem totalmente diferente da culinária da monja Jeong Kwan, ela transmite o cuidado com as pessoas e com a natureza por meio da comida. A relação de respeito que ela tem com os alimentos é encantadora.

// O papel da mulher é denunciar.

Esse relatório da ONU derruba o mito de que o uso de pesticidas é necessário para acabar com a fome mundial. Ele foi escrito pela especialista ao direito à alimentação Hilal Ever e pode impactar diretamente mulheres que trabalham na agricultura.

// O papel da mulher é trocar.

A Mari Pelli acaba de lançar o Roupa Livre App, um aplicativo de trocas que é a concretização do discurso que ela espalha por aí: “A gente não precisa de mais roupas novas, a gente precisa de um novo olhar”.

// O papel da mulher é documentar.

O documentário The Ilusionists, sobre a imposição dos padrões de beleza às mulheres, é um trabalho da Elena Rossini. Ainda não tem data pra sair no Brasil mas eu tô adorando acompanhar os conteúdos compartilhados por ela no Twitter.

// O papel da mulher é pesquisar.

Na sua pesquisa de mestrado, compartilhada no Nexo em linguagem menos acadêmica, a nutricionista Natália Utikava quantificou a pressão que os diferentes padrões alimentares brasileiros exercem sobre os recursos hídricos.

// O papel da mulher é investigar.

A pesquisadora Natasha Felizi estuda os impactos das tecnologias de vigilância. Nessa reportagem ela conta que os aplicativos de ciclos menstruais podem ser bons para mulheres mas por outro lado, geram mais poder e controle para o mercado que compra os dados inseridos por lá.

// O papel da mulher é empreender.

Felizmente, muitas são as mulheres ao meu redor empreendendo negócios com foco em sustentabilidade. Resolvi colocar aqui o trabalho de duas saboeiras, que resgatam essa técnica que exige tempo e cuidado: a Anna Candelária da Sabon Sabon e a minha xaráFefa Pimenta.

+ E como mulher, eu já toquei várias vezes em assuntos do feminino por aqui. Então separei algumas dessas cartas passadas para quem ainda não leu:

carta #16 | outubro rosa e os cosméticos

É assustador pensar que marcas que levantam a bandeira do outubro rosa são as que vendem produtos com ingredientes sinéticos, disruptores hormonais e poluentes o ano inteiro; e que isso pode ser devastador pra saúde da mulher.

carta #11 | uma outra forma de beleza

Tantas mulheres presas em padrões de beleza. Não é o caso de julgar quem enrola ou quem alisa, quem usa maquiagem ou quem não usa, mas quanto do que a gente faz no nosso dia a dia é escolha nossa, quanto é resultado dos padrões a que somos expostas?

E pra você, qual é o papel da mulher na sustentabilidade? Me conta quais são as mulheres que são referência pra você nessa área? Vamos juntas!

Carta #18 | coisas e gestos

Na última carta, a gente conversou por aqui sobre como fazer escolhas melhores, mais alinhadas com o nosso propósito, não foi? Eu acho que o final do ano pode ser um bom momento pra gente experimentar fazer isso. Quero propor dessa vez duas linhas de pensamento: uma é do movimento, o fazer; a outra é do gesto, o doar.

Ano passado, nessa mesma época, eu decidi fazer todos os presentes de natal que eu fosse entregar (e ainda juntei uma turma na minha casa pra todo mundo fazer junto). Esse passo foi natural, aconteceu quando eu questionei a necessidade de demonstrar carinho fazendo compras sem significado.

Fazer com as mãos mostra de várias maneiras que não precisamos seguir os caminhos pré determinados, que podemos fazer diferente. Nesse mundo que a gente vive, onde a correria é a desculpa mais usada para evitarmos os encontros com o real, permitir-se fazer algo com as próprias mãos e com tempo parece rebeldia.

E de certa forma também é uma rebeldia dizer não pra indústria e fazer pessoalmente todo o caminho da produção: encontrar uma ideia (ela pode estar entre suas referências de família ou até mesmo na internet), encontrar a matéria prima (muito legal quando você já tem: pense em uma geléia da amoreira do seu prédio ou um sal de ervas da sua hortinha), aprender como fazer e finalmente fazendo. Parece muito trabalho, mas tem tanto prazer envolvido que fica gostoso. Essa semana vou postar no meu instagram três ideias que qualquer um pode tentar!

Fazendo a gente vivencia os processos, e assim passa a se importar mais com os impactos. E a gente precisa assumir responsabilidades, né? Colocar menos coisas no mundo (menos papel de presente, menos embalagem, menos etiqueta, menos sacola) e cuidar mais da origem do que a gente consome é urgente. Não dá mais pra adiar, deixar pra turma de 2050 resolver. A palavra sustentabilidade não sai do nosso discurso mas ela raramente é pensada além da superfície.

E se de repente você não tem interesse em dar ou receber presentes no Natal e até acha melhor boicotar o espírito capitalista da data (e não correr o risco de cair novamente dentro do padrão de consumo intenso): Tá tudo bem! Uma outra possibilidade pode mudar os nossos hábitos, incentivando um gesto para o outro.

Se você sente que não está precisando de um presente, sugira aos seus familiares que façam uma doação em seu nome para uma instituição de sua escolha. Se, por outro lado, você quiser dar algo que faça a diferença, pense no que é importante para quem você vai presentear e escolha o projeto com base nisso. Essa ideia pode até levar a um amigo-secreto especial. Com a ajuda de alguns amigos, eu preparei essa lista colaborativa pra ser uma referência nessa hora, cada um indicou uma instituição ou projeto que apoia.

E o final do ano é só uma desculpinha, essas duas coisas podem ser feitas a qualquer momento. Não sei se você reparou mas essa carta tem vários bons links, neles tem muitas ideias boas pra ampliar as trocas sobre esse assunto e levar para o resto do ano.

Carta #17 | como escolher melhor?

A primeira carta que eu enviei nessa newsletter completa um ano HOJE! Eu escolhi um dia propositalmente maluco, em que nossa caixa de entrada transborda publicidade, pra levar conversas mais humanas pra esse seu território digital. Eu queria fugir da manipulação de conteúdo feita pelas redes sociais pra termos um tempinho pra trocar com mais calma e significado. Esse tempo todo se passou e não tem sido gostoso preencher os espaços do facebook ou do instagram, justamente porque nesses canais é muito fácil que as ideias se percam e fique tudo parecendo apenas um espetáculo pra acumular corações vermelhos.

Por lá tem muita gente de-ses-pe-ra-da querendo que suas vidas sejam tão perfeitamente calculadas quanto da blogueira sustentável-ecológica-vegana, repetindo padrões que a gente critica tanto de consumo e opressão. Então resolvi fazer um (des)manual com algumas ideias que podem nos levar a fazer escolhas melhores focando no que é possível por agora.

// Conheça seus objetivos

Além do que dizem os estudos de tendências, algum movimento deve mexer com você de forma mais profunda. Quais projetos você gostaria de financiar? Por quem você gostaria de lutar? Quais são as suas causas? Primeiro faça um exercício de auto conhecimento, depois você pode tentar encontrar as soluções e ferramentas que te ajudem a lutar por elas.

// Pare de agir de forma automática

Quanto mais reproduzimos discursos que não são nossos, mais desumanizadas ficam as nossas ações. É preciso refazer conexões com a realidade e questionar. Se estamos buscando levar uma vida mais consciente precisamos pensar mais. É o que pode nos livrar de cair em erros e ações que tem efeito oposto ao que queremos.

// Saia da superfície

Não precisa fazer um doutorado, mas minimamente estudar os assuntos do nosso interesse é muito bom para escolher melhor. Entender a origem, o impacto (na sociedade, na cultura, no meio ambiente) e o valor do que levantamos como bandeira. Assim dá pra definir os próprios critérios de escolha e ter segurança e argumentos pra agir sozinho, desapegar de fórmulas prontas, da opinião das pessoas na internet.

// Diminua sua dependência

Pode ser que em algum momento próximo, a sobrevivência dependa da nossa capacidade de prosperar sem depender do que vem de fora do nosso espaço. Tem gente que acredita que é melhor começar a construir desde já um plano B que possa nos preparar pra esse momento. Isso quer dizer diminuir nossa dependência do supermercado, do petróleo, do carro ou do fast-food por exemplo. Já falei sobre os benefícios do fazer aqui (clique pra ler!) tem muito a ver com buscar autonomia.

Esse é mesmo um processo de dúvidas, e não de certezas. Quando você achar uma resposta, vão surgir outras perguntas. O que sabemos é que não podemos continuar agindo exatamente igual. E tem muito mais pra gente conversar em torno desse tema. Vamos continuar? Me conta quais são as suas táticas pra agir de forma mais acertada?

Carta #16 | outubro rosa e os cosméticos

O que você acha das campanhas do outubro rosa? Dois anos atrás tive o meu primeiro incômodo com essa ideia. O movimento de conscientização com foco no câncer de mama foi se esvaziando de sentido e virando mais uma tarefa na agenda lucrativa dos marketeiros. Eu vejo cada vez mais clara a relação entre saúde e autoconhecimento. Imagina que legal seria se esse movimento voltasse a ser menos sobre vender produtos cor de rosa e mais sobre estimular prevenção?

Um dos passos para podermos nos prevenir é entender os riscos que corremos. O problema é que a gente tá longe de saber o que tem, por exemplo, nos cosméticos que usamos diariamente, ou de saber se tem algum químico perigoso no algodão da nossa camiseta. A gente pensa que se o produto está lá sendo vendido livremente, é porque alguém mostrou que ele é seguro mas isso nem sempre é verdade.

É bem assustador pensar que quem enche ainda mais os bolsos com o nosso dinheiro durante o outubro rosa, são aquelas empresas que trabalham com ingredientes sintéticos, disruptores hormonais e poluentes. É aí que eu penso que a beleza natural deixa de ser um movimento alternativo para ser a alternativa. Tanto essa relação faz sentido que o Breast Cancer Fund tem a Campaign for the Safe Cosmetics, essa fundação trabalha para impedir o câncer de mama antes dele começar. Tão simples e tão genial!

Por isso hoje resolvi dividir com vocês uma receita. Não fui eu que inventei, é uma das receitas de cosméticos do bem mais compartilhadas por aí e muda a vida de muita gente porque realmente funciona, já dá pra ver o resultado no primeiro uso! Depois dela, você pode testar as outras do meu pequeno ebook com a Insecta Shoes (clique para fazer download!).

DESODORANTE FEITO EM CASA

3 colheres sopa óleo de coco derretido

2 colheres de sopa de bicarbonato de sódio

2 colheres de sopa de pó de araruta ou fécula de batata | opcional

5 gotas de óleo essencial | lavanda, melaleuca ou alecrim

É só misturar tudo e deixar bem fechado em um potinho no banheiro. Cuidado para não entrar água, ela pode estragar toda a receita. Aqui vale testar as proporções entre o óleo de coco e o bicarbonato. Algumas pessoas têm reações alérgicas com o uso do bicarbonato, então pode ser bom fazer um teste na pele antes de aplicar na axila. Um desodorante mais saudável é ótimo aliado das mulheres, já que a gente usa esse produto todos os dias, em uma área muito perto dos seios.

Vamos criar espaços para conversar mais sobre isso? Afinal, como a gente pode ser mulher de uma forma mais saudável? Que tal promover em casa uma sessão entre amigos para ver um documentário como o Stink, gratuito até o final do mês, ou o Human Experiment, disponível no Netflix? Ou até compartilhar esse link sobre autoexame. Em tempo, você sabia que homens também podem ter câncer de mama? Chame todo mundo!

A próxima carta vai ser em formato de guia, vamos pensar juntos em como fazer escolhas melhores. Seja bem-vindo/a/@!

Carta #15 | quem precisa das grandes corporações?

Não tenho tido energia para comentar as pequenas notícias, a parceria do Jamie Oliver com a marca que vende congelados de frango ou o aplicativo de combate ao desperdício de comida daquela que vende refrigerante de coca. Queria usar o espaço que eu tenho, o tempo que você dedica para me ler aqui, pra inspirar questionamentos. Resmungar menos e pensar mais em mudanças.

Essa questão das grandes corporações que adotam discursos de sustentabilidade e saúde é muito nova, poucos anos atrás ninguém do mercado se importava com isso. Foi aí que percebi que precisamos conversar sobre isso. Penso que o desconforto que eu sinto pode ser um ranço da minha geração que viu documentários demais, mas até o Biel Baum, com apenas 14 anos, percebe que pode ter alguma coisa errada.

Jamie Oliver, eu discordo de você, não acredito que precisamos das grandes corporações para promover uma mudança em larga escala. Enquanto no Reino Unido você bate de frente com a indústria, criando uma taxa para bebidas açúcaradas, no nosso país de terceiro mundo, defende os produtos processados. Acontece que as marcas estão tão perdidas na busca de pertencer ao nicho dos saudáveis, que elas consideram te contratar mesmo sendo contraditório. Deve ser mais fácil do que repensar toda a cadeia de produção.

Quanto mais as gigantes do varejo surfarem na onda dos produtos naturais, do veganismo e dos “eco qualquer coisa” mais a gente tem que estar protegido pra não cair em embustes. Não vai dar pra impedir que elas entrem nesse movimento, vamos precisar aprender a fazer sozinho, a ler rótulos e a decidir batendo o olho na embalagem no supermercado se aquilo é bom pra gente ou não. A gente vai precisar buscar meios de confirmar que aquele produto também é justo com os trabalhadores, com a comunidade e com a vizinhança, está tudo interligado.

Pode ser que as mudanças venham mais rápido se as corporações virarem a chave, mas dessa forma, continuamos dependentes das decisões deles. Cabe à marca decidir o que é sustentável e a gente fica sem escolha. Enquanto elas ocupam a nossa imaginação com propagandas emocionantes e embalagens de cor verde, na política elas podem estar fazendo lobby para tirar a rotulagem de transgênicos dos alimentos embalados. Vale lembrar: um produto que é mais sustentável do que outro não é necessariamente sustentável de fato.

Por enquanto, posso dizer o que pessoas como eu têm feito para fugir dos shoppings e supermercados: a gente tem comprado de quem produz, direto na fonte, de pessoas com nome e sobrenome. Listei quatro maneiras de fazer isso, se você quiser começar já:

// grupos no facebook

Pode ser um bom começo, é como comprar em uma loja virtual qualquer com a vantagem de conhecer a história de quem coloca a mão na massa e ter suas dúvidas respondidas com muito carinho. Essa internet é cheia de gente que tá começando, que percebeu agora que podia se transformar em empreendedor. Meus grupos preferidos são o dots e o compro de quem faz das minas.

// nas feirinhas

Aqui tem olho no olho, o contato é ainda mais simples e direto. Dá pra ver, experimentar, receber na hora. O clima é muito gostoso. Não é atoa que elas se espalham com força. Minha feirinha do coração é a Feira & Café na Casa Samambaia. E o conceito que eu mais gosto é o da Junta Local, pena que é no Rio. Para alimentos orgânicos, dá pra consultar esse mapa de feiras do Idec.

// dos amigos

Quem mais merece nossa confiança e nosso investimento que os nossos amigos? Pensando bem você deve lembrar de um amigo que também é produtor (pão? geleia? desodorante? caderninhos? cerâmica? sabonetes?). Às vezes a gente compra antes e vira amigo depois, eu considero um bônus.

// dos vizinhos

Não necessariamente entram na intimidade dos amigos, mas pode ser que você descubra preciosidades se começar a perguntar, se deixar o papo de elevador de lado. Aqui, de repente, você nem precisa comprar. Vai que você tem seu vasinho de salsinha e seu vizinho um vasinho de tomate cereja. Vocês podem trocar!

Me conta, como você faz suas escolhas para que sejam mais certeiras? A próxima carta vai aprofundar ainda mais esse tema. Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@!

Carta #14 | porque escolher se posicionar?

“A gente sabe que não pode fazer nada pela nossa filha, mas no futuro essas coisas não devem acontecer — temos que fazer alguma coisa.”

Tá entalado aqui. A maioria das minhas amigas também estão paralisadas com o acontecimento da semana passada. A gente tá sentido a dor daquela menina do Rio de Janeiro. Nem todas conseguem expressar, mas temos em comum um sentimento de falta de esperança no que vem por aí. As forças pro dia de amanhã simplesmente sumiram, nos sentimos presas e impotentes. O desejo é de gritar, de chorar, de lutar — às vezes a gente consegue, dali uns minutos tenta evitar o pensamento, mas no fim não sai do lugar.

Como a gente pode lidar com esse sentimento? Como ele pode servir para nos transformar individualmente, e por consequência, transformar a sociedade? Talvez a frase aí em cima nos dê uma pista. Ela foi dita pelo pai da Jyoti, uma das vítimas da violência sistêmica contra mulheres na Índia. O crime cometido por seis homens gerou intensa comoção, mulheres e homens saíram às ruas pela liberdade e justiça em seguidos dias de manifestações. Essa história foi contada no documentário India’s Daughter.

O pai, mesmo com sua dor, conseguiu clareza pra entender que a vida da filha dele não podia ter sido tomada em vão, que era preciso tornar o futuro melhor. As leis do país precisavam mudar, com certeza, mas também a reação das pessoas diante de casos como esse. Em resumo, a gente tem que se importar. Não dá pra escolher um dia ou outro pra se importar. Tem que se importar todos os dias. Só assim, refletindo sempre sobre nossos hábitos, evitamos que eles colaborem com a violação de direitos básicos, como os da mulher.

Demorei alguns dias para conseguir terminar de ver o filme, ele é duro, a gente ouve coisas impensáveis. Com o coração partido eu sabia que tinha o dever de ser mais uma pessoa a compartilhar essa história. Mas naquele momento, alguns meses atrás, eu não sabia quem iria ser tocado verdadeiramente, se a recomendação não seria engolida pelo cotidiano tão automatizado. Se a Índia parecia longe demais, hoje está escancarado que a Índia é aqui, é no Rio de Janeiro e em qualquer lugar onde não há espaço para as mulheres.

E não é pra perder as esperanças, é pra ter certeza de que é preciso se posicionar diante do que a gente considera errado, romper o silêncio. Mesmo que individualmente a gente seja apenas uma voz, que essa voz seja a diferença entre seis, ou entre trinta.

Carta #13 | me encontrando na escrita

Hoje é meu aniversário!

Antes que você pense em responder essa carta me desejando felicidades, eu gostaria de agradecer. São quase mil pessoas nessa lista, que me oferecem um espaço para dividir um pouquinho da forma com que eu percebo esse mundo. Obrigada!

Eu me dei de presente um curso de escrita, fiz a inscrição com o desejo de tornar o processo da escrita mais fluente para mim. Já na primeira aula entendi que eu poderia sair de lá com esse desejo cumprido, mas que a transformação seria muito mais profunda, como o nome do curso diz, eu vou descobrir como me encontrar na escrita.

Não é por acaso que escolhi o texto como forma de expressão, me dou melhor com o que é escrito, as palavras que às vezes não saem pela boca, vem mais fácil na folha em branco. A professora do curso, Ana Holanda, consegue traduzir o ato de escrever em alguns conceitos com os quais eu me identifico muito. Ela disse que a escrita afetiva cria diálogo em meio a tantos monólogos.

E não foi exatamente por esse motivo que criei essa newsletter? Para conseguir ter conversas verdadeiras, daquelas que não acontecem dentro das redes sociais? Estou com o coração cheio para seguir com esse propósito! Vem comigo?

Agora não me leve a mal, mas gostaria de te pedir um presente. Queria que você compartilhasse uma inspiração, uma referência, alguma coisa que fez o seu olho brilhar hoje. Pode ser um texto, um vídeo, um livro que leu, uma pessoa que conheceu. Não esquece de se apresentar, contar um pouquinho de você nessa resposta, tá?

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@!

Carta #12 | um pouco de silêncio

Em 2014 eu fiz uma resolução de ano novo (coisa incomum, não costumo fazer!). Me comprometi a não brigar na internet, me mantive longe de conversas polêmicas que poderiam em algum momento desandar em ofensas pessoais. Deu (quase) certo. Venho mantendo esse espírito desde então. Não que eu tenha deixado de me conectar com o outro, apenas passei a fazer trocas de formas mais certeiras.

Essa vontade de deixar a vida na internet um pouco mais saudável justifica em parte porque ando tão quietinha por aqui. O “mundo lá fora” anda com excesso de vozes, que não comunicam, apenas movimentavam as bocas. Resultam em uma grande quantidade de conversas acaloradas e vazias. Então preferi silenciar. Tive que parar para observar toda essa agitação, notei que a maioria não teria ouvidos pro que fosse dito por aqui.

Mas pra mim, de nada serviria o silêncio sem a escuta. Não basta calar e ouvir apenas o que tem dentro da gente, é preciso se abrir para reflexão. Tenho notado pessoas que falam apenas para serem ouvidas e não para produzir trocas consistentes. Penso que parte dos nossos problemas diários seriam resolvidos se atropelássemos menos com a nossa ânsia por falar. Quanto tempo do seu dia você tem dedicado a perceber a fala do outro?

Estar online nas redes sociais é ser afrontado com milhares de ruídos o tempo todo. A gente pode se acostumar com a super exposição ou pode tentar acalmar, deixar esse barulho mais baixinho. Também é inteligente manter as conversas no nível construtivo, escolhendo lugares em que isso possa acontecer. Lugares com menos tensão, onde não somos jogados um contra o outro pelo próprio desenho do espaço. Mesmo que a gente tenha que ir pro offline mesmo, pros encontros reais.

“A gente esquece. Esquece que olhando no olho não falaríamos daquele jeito. Que frente a frente as coisas ganham outro tom, a gente se vê naquele outro humano, pense ele o que pensar.” — disse a amiga Carol Patrocínio nesse texto muito necessário.

Vale lembrar que escolher o silêncio e a observação nada tem a ver com ser silenciado. Que a gente fique bem atento para não cair nesse lugar. Nossas falas não podem ser desacreditadas. Na semana passada, a Anna Haddad falou na sua newsletter sobre os espaços de fala femininos, aconselho a leitura.

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas, seja bem-vindo/a/@! Eu adoraria saber quais lugares você tem escolhido para ter boas discussões, me conta respondendo esse e-mail?

Beijos,

Fê Canna

Carta #11 | uma outra forma de beleza

Confesso que não me lembro exatamente como comecei a me interessar por beleza natural. Me recordo apenas da busca por produtos não testados em animais, motivada pelo vegetarianismo. É bastante provável que a pesquisa intensa tenha me levado ao universo dos cosméticos orgânicos e, indo um pouco mais a fundo, me deparei com a ideia dos produtos feitos em casa. Como sou apaixonada pelo fazer e pela produção de coisas do zero, me identifiquei imediatamente.

Como consequência, passei a acumular menos embalagens, menos produtos tóxicos e o principal, descobri como escolher melhor o que eu usava. O maior passo talvez nem tenha sido substituir todos os produtos usados no banho por apenas um sabonete natural em barra (sim, no cabelo também!). Pra mim a coisa mais importante que essa nova forma de enxergar a beleza me trouxe foi a possibilidade de aceitação e autoconhecimento.

Eu passei boa parte da minha vida brigando com o meu cabelo. Eu não gostava do formato dele. Aliás, eu tinha aprendido que meu cabelo não tinha formato e que para ter movimento e leveza era preciso alisar. Com uns 11 anos comecei a fazer escova e repeti essa prática diariamente até pouco tempo atrás. Mas eu não achava que tinha nada de errado com isso, afinal, eu nunca pintei, nunca alisei, não tinha nenhuma química envolvida, era um processo “natural”.

Constantemente eu me enganava falando que era mais prático ficar alguns minutos fazendo escova do que tentando arrumar ele de outra forma. Os shampoos convencionais me enganavam deixando os fios secos e meio alisados. Mas o problema é que a minha “solução” não me tirava apenas alguns minutos, eu sentia que eu acordava horrível e que precisava lavar e escovar para voltar a ser bonita.

A combinação do corte certo que respeita o formato do meu cabelo e a lavagem menos agressiva com sabonete natural fez com que hoje todo mundo elogie o meu cabelo e diga que prefere ele assim. Eu também prefiro, agora posso colocar o capacete da bicicleta sem medo, pegar chuva sem entrar em pânico, ir à praia. Uma amiga me falou que não combinava com o meu estilo de vida fazer escova, que quando eu contei pra ela, achou estranho. (É, Dani! Hoje eu também acho estranho!)

Eu posso tentar ser uma pessoa que eu não sou, mas eu nunca vou conseguir. Então decidi ser a melhor versão possível de mim mesma, com as minhas qualidades e os meus defeitos próprios. Não é o caso de julgar quem enrola ou quem alisa, quem usa maquiagem ou quem não usa, mas quanto do que a gente faz no nosso dia a dia é escolha nossa, quanto é resultado dos padrões a que somos expostas?

É por isso que tenho me sentindo muito bem ajudando mais pessoas a fazerem mudanças como as que eu fiz. No meu novo texto pro Ponto Eletrônico eu falo como a beleza natural tem sido uma arma importante de empoderamento para nós mulheres. Ele é super complementar à minha história pessoal, por isso esperei o texto entrar no ar para escrever essa carta. Clique aqui para ler.

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@! Vou adorar se você responder esse e-mail me contando sobre seu relacionamento com a beleza. Você tem alguma receita favorita? O que tem usado? Compartilhe comigo! ;)

Beijos,

Fê Canna

Carta #10 | porque não é uma competição

Ontem voltando de bicicleta de uma reunião, no trajeto Pinheiros-Paraíso, eu consegui pela primeira vez responder calmamente à ofensa de um carro (tá tudo bem viu, mãe?). Ele dirigia uma van escolar e eu uma bicicleta dobrável de 7 marchas. Dá pra entender quem tinha que zelar por quem, certo? Na teoria o raciocínio funciona, mas não tanto na prática. Depois de cruzarmos duas vezes em uma rua calma, de ouvir buzinas sem propósito e levar “finas educativas”, eu o questionei com serenidade:

- Amigo, não quero competir com você, só quero que me respeite. Se você me assusta e eu caio, fica pior pra nós dois. Qual o propósito disso?

- Desculpa, você tá certa moça!

Pode ser que ele continue com a mesma postura, mas pode ser que ele reflita que eu sou uma vida na bicicleta, que podia ser a vida dele ou de alguém querido.

Não quer dizer que eu tenha ficado menos chateada dessa vez do que da vez que eu gritei, gesticulei e xinguei. Mas eu tentei entender o que estava por trás daquela pressa, daquela fúria. Nesse caso a problemática passa pelas relações de poder na cidade, a gente se sente tão oprimido o tempo todo que acha que precisa fazer demonstrações constantes de força. Pra quem serve nossa agressividade, nosso ódio? Serve pra mim e pra você ou pra dominância e manutenção de poder?

Propor diálogo aqui fez muito mais sentido pra mim do que brigar. Quando isso acontece é o momento da gente parar de comprar frases prontas (como “todo motorista é um monstro”), quase obrigatórias, e exercitar a empatia. É entender qual história de vida fez com que aquela pessoa tomasse a atitude que tomou (se fosse a gente, com a mesma vivência, será que não teríamos feito igual?) e mostrar novos caminhos.

Só posso usar as palavras do André Gravatá, pois elas expressam exatamente o que sinto hoje: “Em alguma medida, todos somos educadores e educadoras. Todos temos responsabilidade pelos conteúdos, falas e comportamentos que compartilhamos com os outros. Quanto mais raiva em circulação, mais violência será aprendida, mais terror virá pela frente.”

Olha só, se eu pareço repetitiva com alguns assuntos não é porque quero colocar esses comportamentos como exemplo, é uma tentativa de colocar a minha experiência pra que vocês consigam fazer paralelos com a própria realidade e vivência. Conheço gente que é muito transformadora em seus movimentos e elas com certeza não precisam de mim para dizer que bandeira têm que levantar. Não tem medalha pra quem provoca mais mudanças, não é uma competição. Dá pra ver uma ligação entre isso e a situação política que vivemos hoje?

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@! Fique a vontade para responder esse e-mail, vou adorar saber como você tem aplicado a empatia no seu dia a dia! ;)

Beijos,

Fê Canna

Carta #9 | fazendo cada mordida valer a pena

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Tenho andado quieta mas com muita coisa acontecendo na minha cabeça. A matéria de capa da revista Vida Simples desse mês era “Como ter melhores conversas”. Fui fisgada, vivo pensando em como eu poderia fazer para me comunicar melhor, de forma clara e amorosa. O assunto nunca foi natural pra mim, que nasci introvertida. Mas não tem jeito, meu olho brilhou mesmo com uma matéria sobre comida.

Já que a revista não tem versão digital eu vou tentar resumir pra gente chegar no ponto que eu quero, tá bom? O texto do Rafel Tonon, chamado “Faça cada garfada valer a pena”, apresenta um manual prático de como ter refeições mais prazerosas e que surpreendam o paladar. Com dicas de especialistas como críticos gastronômicos e chefs, as ideias abordam trivialidades como mastigar melhor ou se manter offline enquanto aprecia o jantar.

Não tenho a intenção fazer uma crítica ao texto, eu concordo com o François Simon quando ele diz em seu livro Comer é um sentimento que “o apetite é apenas um ajuste, o alinhamento das coisas mais simples: um jornal, um sanduíche bem crocante, um lugar ao sol, o ar refrescante de um parque”. Não tivesse eu esse apreço pela refeição como ritual, não faria tantos piqueniques, não teria prazer em cozinhar para os amigos. Para ser sincera, eu até recomendo que vocês também o façam, pois isso deixa a vida mais leve.

Mas essa leitura me fez refletir sobre a minha relação com a comida. Ela é muito mais ampla do que o meu próprio prazer. Desde que me tornei vegetariana eu escolhi transformar minhas refeições em um ato consciente e nunca mais parei. Para além do abate animal, outros temas começaram a me interessar: a produção e o desperdício de alimentos, o uso de agrotóxicos, a saúde (ou falta dela) de agricultores que usam pesticidas, o poder da indústria, o impacto ambiental, etc.

Pra mim, toda vez que eu levanto o garfo, estou sinalizando que eu concordo com o que está no meu prato. Tenho vontade de cuidar para que todo o processo esteja de acordo com os meus valores, e é um exercício diário para sair do automático e questionar. De onde vem? Sobrou? Do que é feito? Mas não é simples, envolve tentativas frustradas, tem ocasiões que eu não tenho vontade de levantar o garfo.

Essa história rende comparações com outros universos (com a moda, com o ensino, com o esporte), mas talvez a comida seja um elo entre eu e você. Afinal, nem todo mundo liga pra cosméticos, ou produz lixo demais, mas pelas minhas contas ainda não inventaram um substituto mágico para a alimentação. Tem alguns documentários que eu gosto e indico sempre pra quem quer levar o assunto adiante: Vanishing of the beesFed Up,Muito Além do Peso e Cowspiracy.

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@! Quanto a mim, sigo tentando melhorar as conversas. E se a prática leva à perfeição, imagina que legal se você responder essa carta! Assim a gente pode praticar juntos.

Beijos,

Fê Canna

Carta #8 | estilo de vida consciente é pra todo mundo?

Tenho refletido muito sobre quem é o público dos meus textos sobre estilo de vida consciente (aqui nessas cartas e em sites que colaboro). Será que você tem tempo, dinheiro ou conhecimento para abraçar uma vida mais sustentável? E será que isso realmente é um obstáculo? Qual seria a melhor maneira de adaptar a minha bagagem pessoal sobre o tema pra realidade de mais pessoas?

Me lembrei que comecei a escrever para compartilhar minhas experiências e inspirar mudanças de atitude. Desde que me tornei vegetariana (quase 15 anos atrás) venho caminhando em direção ao que acredito hoje, passando pela alimentação saudável, consumo local e orgânico, envolvimento com a natureza até a mudança para os cosméticos do bem, naturais e sem testes em animais. A influência de outras pessoas foi fundamental para essa construção. É por isso que eu acredito tanto no poder da informação.

É importante lembrar que pra mudar de vida a gente não precisa se desfazer de tudo que tem pra comprar versões mais verdes, ou fazer um cardápio alimentar completamente novo. Aliás, essa atitude é provavelmente o oposto de uma vida pautada por novos valores. Com conhecimento a gente pode ir driblando preços, com autonomia podemos fazer em vez de comprar. Também dá pra focar em viver com o que já temos, passar a receber menos influência desse mercado que promove o consumismo. E se eventualmente precisarmos mesmo de algo, podemos emprestartrocar ou alugar (as ideias dos links são maravilhosas, valem o clique!).

O ponto é que quando estamos certos do que a gente acredita fica simples resolver pequenos impedimentos. Escolher melhor na hora da compra é importante, mas tem muitas outras coisas que podemos fazer no dia a dia. Eu faço cosméticos com coisas que iriam para o lixo na minha cozinha (semente de maracujá, abacate passado, etc.). Não preciso apostar todo meu dinheiro em uma super comida da moda porque me alimento bem todos os dias. Eu frequento a feira orgânica sim, aqui no meu bairro nem tem tanta diferença entre ela e o supermercado convencional. Mas se for pesar no seu orçamento, que tal apostar na feira comum? Ou então plantar? Vai ser melhor do que do que comer produtos industrializados, com corantes e conservantes.

Me parece que quando nos colocamos em um pedestal e julgamos o que o outro vai conseguir ou não construir pela sua renda, por exemplo, só aumentamos a dicotomia entre pobre e rico. Podíamos combinar que essa é uma escolha pessoal que não nos diz respeito. É mais produtivo se a gente focar na própria pegada. Compartilhar com quem não tem as mesmas possibilidades também pode ser uma boa. Mas acreditar que pessoas com renda inferior não têm vontade de participar de uma transformação social e ambiental é muito raso, quem abre os olhos vê iniciativas muito boas por aí. Adoro mostrar o trabalho da Regina com o Favela Orgânica, de fazer inveja em muito hortelão urbano por aí.

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@! Fique a vontade para responder esse e-mail, vou adorar ouvir suas ideias e descobrir o que você tem feito por aí! ;)

Beijos,

Fê Canna