Carta #12 | um pouco de silêncio

Em 2014 eu fiz uma resolução de ano novo (coisa incomum, não costumo fazer!). Me comprometi a não brigar na internet, me mantive longe de conversas polêmicas que poderiam em algum momento desandar em ofensas pessoais. Deu (quase) certo. Venho mantendo esse espírito desde então. Não que eu tenha deixado de me conectar com o outro, apenas passei a fazer trocas de formas mais certeiras.

Essa vontade de deixar a vida na internet um pouco mais saudável justifica em parte porque ando tão quietinha por aqui. O “mundo lá fora” anda com excesso de vozes, que não comunicam, apenas movimentavam as bocas. Resultam em uma grande quantidade de conversas acaloradas e vazias. Então preferi silenciar. Tive que parar para observar toda essa agitação, notei que a maioria não teria ouvidos pro que fosse dito por aqui.

Mas pra mim, de nada serviria o silêncio sem a escuta. Não basta calar e ouvir apenas o que tem dentro da gente, é preciso se abrir para reflexão. Tenho notado pessoas que falam apenas para serem ouvidas e não para produzir trocas consistentes. Penso que parte dos nossos problemas diários seriam resolvidos se atropelássemos menos com a nossa ânsia por falar. Quanto tempo do seu dia você tem dedicado a perceber a fala do outro?

Estar online nas redes sociais é ser afrontado com milhares de ruídos o tempo todo. A gente pode se acostumar com a super exposição ou pode tentar acalmar, deixar esse barulho mais baixinho. Também é inteligente manter as conversas no nível construtivo, escolhendo lugares em que isso possa acontecer. Lugares com menos tensão, onde não somos jogados um contra o outro pelo próprio desenho do espaço. Mesmo que a gente tenha que ir pro offline mesmo, pros encontros reais.

“A gente esquece. Esquece que olhando no olho não falaríamos daquele jeito. Que frente a frente as coisas ganham outro tom, a gente se vê naquele outro humano, pense ele o que pensar.” — disse a amiga Carol Patrocínio nesse texto muito necessário.

Vale lembrar que escolher o silêncio e a observação nada tem a ver com ser silenciado. Que a gente fique bem atento para não cair nesse lugar. Nossas falas não podem ser desacreditadas. Na semana passada, a Anna Haddad falou na sua newsletter sobre os espaços de fala femininos, aconselho a leitura.

Se você chegou agora pode ler as cartas passadas, seja bem-vindo/a/@! Eu adoraria saber quais lugares você tem escolhido para ter boas discussões, me conta respondendo esse e-mail?

Beijos,

Fê Canna