Carta #14 | porque escolher se posicionar?

“A gente sabe que não pode fazer nada pela nossa filha, mas no futuro essas coisas não devem acontecer — temos que fazer alguma coisa.”

Tá entalado aqui. A maioria das minhas amigas também estão paralisadas com o acontecimento da semana passada. A gente tá sentido a dor daquela menina do Rio de Janeiro. Nem todas conseguem expressar, mas temos em comum um sentimento de falta de esperança no que vem por aí. As forças pro dia de amanhã simplesmente sumiram, nos sentimos presas e impotentes. O desejo é de gritar, de chorar, de lutar — às vezes a gente consegue, dali uns minutos tenta evitar o pensamento, mas no fim não sai do lugar.

Como a gente pode lidar com esse sentimento? Como ele pode servir para nos transformar individualmente, e por consequência, transformar a sociedade? Talvez a frase aí em cima nos dê uma pista. Ela foi dita pelo pai da Jyoti, uma das vítimas da violência sistêmica contra mulheres na Índia. O crime cometido por seis homens gerou intensa comoção, mulheres e homens saíram às ruas pela liberdade e justiça em seguidos dias de manifestações. Essa história foi contada no documentário India’s Daughter.

O pai, mesmo com sua dor, conseguiu clareza pra entender que a vida da filha dele não podia ter sido tomada em vão, que era preciso tornar o futuro melhor. As leis do país precisavam mudar, com certeza, mas também a reação das pessoas diante de casos como esse. Em resumo, a gente tem que se importar. Não dá pra escolher um dia ou outro pra se importar. Tem que se importar todos os dias. Só assim, refletindo sempre sobre nossos hábitos, evitamos que eles colaborem com a violação de direitos básicos, como os da mulher.

Demorei alguns dias para conseguir terminar de ver o filme, ele é duro, a gente ouve coisas impensáveis. Com o coração partido eu sabia que tinha o dever de ser mais uma pessoa a compartilhar essa história. Mas naquele momento, alguns meses atrás, eu não sabia quem iria ser tocado verdadeiramente, se a recomendação não seria engolida pelo cotidiano tão automatizado. Se a Índia parecia longe demais, hoje está escancarado que a Índia é aqui, é no Rio de Janeiro e em qualquer lugar onde não há espaço para as mulheres.

E não é pra perder as esperanças, é pra ter certeza de que é preciso se posicionar diante do que a gente considera errado, romper o silêncio. Mesmo que individualmente a gente seja apenas uma voz, que essa voz seja a diferença entre seis, ou entre trinta.