Carta #15 | quem precisa das grandes corporações?

Não tenho tido energia para comentar as pequenas notícias, a parceria do Jamie Oliver com a marca que vende congelados de frango ou o aplicativo de combate ao desperdício de comida daquela que vende refrigerante de coca. Queria usar o espaço que eu tenho, o tempo que você dedica para me ler aqui, pra inspirar questionamentos. Resmungar menos e pensar mais em mudanças.

Essa questão das grandes corporações que adotam discursos de sustentabilidade e saúde é muito nova, poucos anos atrás ninguém do mercado se importava com isso. Foi aí que percebi que precisamos conversar sobre isso. Penso que o desconforto que eu sinto pode ser um ranço da minha geração que viu documentários demais, mas até o Biel Baum, com apenas 14 anos, percebe que pode ter alguma coisa errada.

Jamie Oliver, eu discordo de você, não acredito que precisamos das grandes corporações para promover uma mudança em larga escala. Enquanto no Reino Unido você bate de frente com a indústria, criando uma taxa para bebidas açúcaradas, no nosso país de terceiro mundo, defende os produtos processados. Acontece que as marcas estão tão perdidas na busca de pertencer ao nicho dos saudáveis, que elas consideram te contratar mesmo sendo contraditório. Deve ser mais fácil do que repensar toda a cadeia de produção.

Quanto mais as gigantes do varejo surfarem na onda dos produtos naturais, do veganismo e dos “eco qualquer coisa” mais a gente tem que estar protegido pra não cair em embustes. Não vai dar pra impedir que elas entrem nesse movimento, vamos precisar aprender a fazer sozinho, a ler rótulos e a decidir batendo o olho na embalagem no supermercado se aquilo é bom pra gente ou não. A gente vai precisar buscar meios de confirmar que aquele produto também é justo com os trabalhadores, com a comunidade e com a vizinhança, está tudo interligado.

Pode ser que as mudanças venham mais rápido se as corporações virarem a chave, mas dessa forma, continuamos dependentes das decisões deles. Cabe à marca decidir o que é sustentável e a gente fica sem escolha. Enquanto elas ocupam a nossa imaginação com propagandas emocionantes e embalagens de cor verde, na política elas podem estar fazendo lobby para tirar a rotulagem de transgênicos dos alimentos embalados. Vale lembrar: um produto que é mais sustentável do que outro não é necessariamente sustentável de fato.

Por enquanto, posso dizer o que pessoas como eu têm feito para fugir dos shoppings e supermercados: a gente tem comprado de quem produz, direto na fonte, de pessoas com nome e sobrenome. Listei quatro maneiras de fazer isso, se você quiser começar já:

// grupos no facebook

Pode ser um bom começo, é como comprar em uma loja virtual qualquer com a vantagem de conhecer a história de quem coloca a mão na massa e ter suas dúvidas respondidas com muito carinho. Essa internet é cheia de gente que tá começando, que percebeu agora que podia se transformar em empreendedor. Meus grupos preferidos são o dots e o compro de quem faz das minas.

// nas feirinhas

Aqui tem olho no olho, o contato é ainda mais simples e direto. Dá pra ver, experimentar, receber na hora. O clima é muito gostoso. Não é atoa que elas se espalham com força. Minha feirinha do coração é a Feira & Café na Casa Samambaia. E o conceito que eu mais gosto é o da Junta Local, pena que é no Rio. Para alimentos orgânicos, dá pra consultar esse mapa de feiras do Idec.

// dos amigos

Quem mais merece nossa confiança e nosso investimento que os nossos amigos? Pensando bem você deve lembrar de um amigo que também é produtor (pão? geleia? desodorante? caderninhos? cerâmica? sabonetes?). Às vezes a gente compra antes e vira amigo depois, eu considero um bônus.

// dos vizinhos

Não necessariamente entram na intimidade dos amigos, mas pode ser que você descubra preciosidades se começar a perguntar, se deixar o papo de elevador de lado. Aqui, de repente, você nem precisa comprar. Vai que você tem seu vasinho de salsinha e seu vizinho um vasinho de tomate cereja. Vocês podem trocar!

Me conta, como você faz suas escolhas para que sejam mais certeiras? A próxima carta vai aprofundar ainda mais esse tema. Se você chegou agora pode ler as cartas passadas nesse endereço aqui. Seja bem-vindo/a/@!