Carta #20 | consertar é participar da revolução da moda

No ano passado, me inscrevi em uma oficina chamada “coleção de pontos à mão” no Sesc Pompeia. Foi meio no escuro, o folheto não explicava direito a proposta. Chegando lá, a professora, Ofelia Lott, entusiasta da costura como antigamente definiu de forma linda sua intenção: “é preciso adestrar as mãos!”. E foi com esse espírito que a turma se debruçou na mala de mão que carregava infinitas amostras de acabamentos funcionais ou decorativos para roupas.

Eu sempre tive orgulho de saber costurar, é uma das habilidades que mais rendem no meu dia a dia, mas como proprietária de uma bela Singer 15C , tinha pouco interesse em uma costura mais lenta, sujeita a pequenos deslizes e imperfeições. Um processo diferente do que a máquina produz. Feliz, saí do curso com o universo expandido e uma coleção pessoal de pontos feitos à mão.

Uma das expressões mais bonitas e fortes que tenho visto acontecer na moda tem muita relação com permitir o que é impreciso e imperfeito, tem a ver com fazer à mão mas também com refazer. É o “visible mending”, que a gente pode combinar de chamar de reparo visível. Gente muito apaixonada pelo fazer manual e por cuidar das suas roupas como Tom Van DeijnenJerome Sevilla (da foto aí em cima) e Katrina RodaBaugh têm vestido com orgulho suéteres cerzidos e jeans remendados.

Eles fazem os consertos com a intenção de aparecer mesmo, como uma medalha que reafirma o que aquela peça viveu. Não importa se ela foi feita à mão ou de forma industrial, se foi cara ou barata, ela merece ser cuidada e reconhecida. Assim, vão cultivando uma relação não descartável com a roupa, em busca da cultura do reparo, que deixamos sumir recentemente. É o oposto da moda que se renova todos os dias no fast-fashion, do vício pela novidade que gera uma total indiferença com as memórias.

E é subversivo porque existe um espírito ativista. É um protesto que se faz ouvir com gentileza e provoca questionamentos. Pra mim esse é o lado mais interessante, porque ver as pessoas fazendo isso me inspira a dar valor ao que eu tenho. Me dá ainda mais vontade de colocar esforço em fazer as coisas durarem e evitar o quanto possível o destino ao lixão.

Essa semana acontece a Fashion Revolution Week, uma das ações de um movimento global que vem chamando atenção para uma necessária mudança na forma como fazemos e consumimos moda. E pra mim tá claro que quanto mais envolvimento tivermos em cada um dos ciclos do produto, mais a gente vai fazer parte dessa transformação que olha com respeito pra quem faz e pra matéria prima.

Vamos falar mais sobre a moda que a gente quer? Me conta se você tem se engajado em algum projeto nesse sentido!