Carta #24 | porque meus amigos querem ir morar “no mato”?

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Fui criado no mato e aprendi a gostar
das coisinhas do chão — 
Antes que das coisas celestiais.
— Manoel de Barros

Essa semana vi muitos amigos dizendo que querem ir morar “no mato”, ir em direção ao interior, fugir da cidade e vivenciar o êxodo urbano. Principalmente aqueles que ainda vivem em São Paulo, mas não só eles, todos que se sentem um pouco enganados pelas promessas da cidade grande. É que a gente, já me incluindo nessa, não tem encontrado felicidade no asfalto e tem achado muito duro conviver com certas pragas urbanas, como a falta de tempo e as vidas que se perdem no trânsito.

A gente quer plantar, a gente quer fazer pão, quer ver a chegada das novas estações, quer encurtar distâncias, quer comer fruta do pé, quer viver com menos. Quer construir, fazer, colher, cuidar, contemplar, moderar, cultivar, acreditar ao invés de comprar, correr, repetir, consumir, acelerar, duvidar, fugir, reclamar.

A sensação de resiliência, longe dos grandes centros urbanos, é atraente. É que na cidade não existe o movimento de adaptação, na cidade a gente precisa sempre da mesma coisa, ou de mais da mesma coisa, nunca de outra coisa, ou de menos dessa coisa. E essa coisa é o dinheiro, já que na cidade a gente não produz o que precisa diretamente. A gente converte horas de trabalho em papel, ou dinheiro virtual, e nosso bem estar passa a ser atrelado diretamente com o quanto ganha em um ciclo insalubre e insustentável.

Aliás, no campo a natureza ainda determina como devemos trabalhar e quanto tempo dedicaremos ao trabalho. Na natureza tem a hora de plantar e a de colher. Tem a época de uma coisa e a época de outra. Tem a época de não plantar nada, mas de preparar o terreno, consertar as cercas, separar as sementes, fazer as conservas.

Mas a cultura de alimentos é só um exemplo de trabalho que pode ser feito a partir do campo, não é o caso de todo mundo virar agricultor se não quiser. Mas ter seu espaço pra plantar pode ser muito útil para garantir um pouco de autonomia alimentar, compreender e valorizar a origem dos alimentos e aprender a respirar em outro ritmo. O que as pessoas que já fizeram esse caminho encontram, é a ressignificação do tempo dedicado ao trabalho, um novo olhar sobre o cuidado consigo mesmo e com o mundo.

Quanto a mim, eu tenho experimentado esse caminho que tá quase no meio, entre a metrópole e a província. Moro em uma cidade que não é gigante como a cidade em que nasci. Com apenas 350 mil habitantes, dá pra atravessar a minha nova cidade caminhando, mas tem tudo que alguém pode precisar, desde o contato com a natureza até as opções culturais. Ainda assim, sinto falta de mais espaço, de uma terra pra plantar que não esteja no vaso.

Será que tem alguém lendo essa carta que fez essa mudança recentemente? Ia adorar saber como foi sua experiência, me escreve?! E se você ainda está na cidade, sem planos de deixar essa história pra trás, o que você tem feito pra respirar?

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