Carta #27 | enquanto esperamos a volta à normalidade

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Olá,

 

Ainda essa semana enviei uma carta falando sobre como pode ser difícil pra mim falar sobre sustentabilidade em meio ao caos e aos diversos conflitos do nosso tempo. Ironicamente, hoje me deu vontade de falar sobre a crise de abastecimento no Brasil, então voltei aqui para escrever mais uma carta. 

 

Sem entrar no mérito de quem está por trás da paralização dos caminhões (ainda que eu recomende fortemente que você procure saber…) ou da legitimidade desse ato, resolvi mergulhar em questões anteriores que podem nos ajudar a pensar sobre outras possibilidades pro futuro.

 

A comida não chega quando o abastecimento de gasolina é interrompido porque estamos inseridos em um sistema completamente dependente, baseado na escassez. Dentro dessa lógica, produção e consumo são dois universos desconectados e que só se encontram quando existe uma troca monetária. Para que essa troca aconteça é preciso que os alimentos sejam transportados do campo até as cidades, onde está a maior concentração de pessoas e, consequentemente, de dinheiro. Hoje no Brasil o transporte é feito por via terrestre, sujeito à disponibilidade de combustível fóssil.

 

Esse sistema está constantemente em risco. Mudanças climáticas, desvalorização da moeda e variação do preço do petróleo no mercado internacional são alguns exemplos. Quando li o livro The Transition Handbook, que é um guia da transição da dependência do petróleo para a resiliência local, entrei em contato pela primeira vez com a teoria do "Peak Oil". Não sou especialista mas é claro que eu sabia que o petróleo era um recurso esgotável. Eu só não imaginava que o petróleo barato e disponível, como conhecemos hoje, poderia não ser a realidade de um futuro tão próximo.

 

Hoje, a discussão é sobre o preço, mas ignoramos o fato de que o petróleo um dia vai acabar, e não vai demorar para isso acontecer. Quando ele se tornar escasso, o preço vai subir para todo o mundo. Se não nos prepararmos para esse momento, enfrentaremos um apocalipse. O que vimos nesses 5 dias é uma amostra do que pode vir a ser. As sugestões do livro nunca fizeram tanto sentido para mim.

 

Concentração da produção, desperdício e dependência não são uma boa combinação pro futuro da nossa alimentação. É preciso desenvolver, priorizar e fortalecer a produção local. Se nós temos garantida a capacidade de produzir o que precisamos por perto, não ficamos tão sujeitos à flutuação da economia e à paralização de uma categoria da sociedade. O problema está mais próximo do que poderíamos imaginar e falar sobre como a comida é produzida e distribuída deveria ser do interesse de todos os que precisam comer.

 

Mas é possível desenvolver a autonomia alimentar em grandes centros urbanos? Não é uma tarefa fácil, exige muita movimentação e colaboração. Separei algumas ideias e projetos ligados a elas pra te ajudar a ver materialidade nesse conceito.

 

// participar de uma horta comunitária: Horta das Corujas, Horta CCSP, Horta de Calçada Cristo Rei.

 

// depender menos de insumos externos (pesticidas, fertilizantes) com a agroecologia urbana: Instituto MUDA, Jardineiros Agroecológicos, Perma Perdizes.

 

// estimular o consumo de alimentos inseridos no contexto urbano mas que não são valorizados comercialmente como as panc's (plantas alimentícias não convencionais): Mato no Prato, Bruna de Oliveira, Neide Rigo, Guia Pratico de Panc do Instituto Kairós.

 

// produzir o próprio solo por meio da compostagem: Morada da Floresta, Ciclo Orgânico, Re.ciclo.

 

// cuidar das abelhas, essenciais para a produção de alimentos: SOS Abelhas sem Ferrão.

 

// proteger a liberdade de replantar sementes com bancos de sementes nativas.

 

// valorizar os alimentos nativos: Instituto Auá, Instituto Socioambiental.

 

// apoiar e sustentar pequenos agricultores orgânicos com a compra coletiva: Quitandoca, CSA Brasil.

 

Pensando em outros bens de consumo, para além do assunto da alimentação, encontramos outras iniciativas que promovem a autonomia e a resiliência. Os projetos que trabalham com matérias primas de reuso ou as redes de troca e compartilhamento são alternativas possíveis.

 

É um passo em direção à transição. Para que os produtores lá no começo da cadeia não sejam prejudicados com sua produção perdida sem escoamento. Para que a gente não tenha que abater animais porque eles estão praticando canibalismo. Para que a gente não sofra as consequências de um pânico coletivo. É verdade que em uma crise como a enfrentada pelo Brasil hoje, essa proposta não dá conta da distribuição de medicamentos, da coleta de lixo e do funcionamento do transporte público. Mas quem sabe, com o poder menos centralizado, nosso poder de barganha seria maior.

 

Se eu fosse a Bela Gil, diria que você pode substituir as compras no supermercado pela contribuição em uma horta comunitária. Já é um começo muito bonito.

 

Beijos,

 

Fê Canna