carta #28 | uma troca que não envolve dinheiro

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Olá,

 

 Ando falando por aí de uma vontade minha de desconectar com mais frequência das várias telas que fazem parte da minha vida hoje - principalmente a do telefone, que me coloca em contato com as redes sociais e acaba afetando tanto a minha atenção. Ainda não é a vez de falar sobre esse assunto por aqui, hoje eu vim falar de uma ideia que surgiu em um desses momentos em que eu estava experimentando o uso consciente do meu tempo. Essa carta de hoje é sobre trocas.

Você também acredita que as ideias podem surgir com as mãos?

Eu tinha decidido passar o final de semana sem acessar nenhuma rede social (só com a minha vontade de estar mais presente na minha própria vida, sem apagar os aplicativos ou usar artifícios externos). Meu marido precisava estudar e eu decidi ficar em casa também. Fui procurar minha calma na costura, peguei alguns projetos que estavam esperando um pouco de dedicação e comecei a mexer com os tecidos. Fiz uma toalha de piquenique que estava querendo faz tempo, transformei um lenço antigo e reformei um vestido que estava grande demais. Também costurei uma bento bag, um tipo de embalagem de pano que pode carregar um lanche ou frutas, por exemplo.

No final do dia, na frente da minha máquina de costura, me peguei pensando em como eu gostaria de conhecer mais pessoas que partilham dos meus valores por aqui. Seria bom para praticar meu vocabulário em francês (pra quem não sabe, faz quase dois anos que moro na França) e para trocar experiências e percepções dentro dos temas que me interessam com pessoas que tem uma vivência diferente da minha. Em outras palavras: queria me enturmar o/ !

Estava finalizando a bento bag, que serve, entre tantas outras coisas, para recusar as embalagens plásticas descartáveis. Abri uma exceção justa na minha regra de não usar as redes sociais naquele dia e fiz uma oferta na comunidade zero lixo da minha cidade. Me coloquei a disposição para receber pessoas aqui para fazermos juntas alguns produtos em tecido que pudessem ajudá-las em sua jornada na redução de lixo. Em troca, essas pessoas compartilhariam suas histórias e escolhas comigo, em francês.

Dar aulas de costura não está nos meus planos e, certamente, dar aulas de francês não é o objetivo de todo nativo desse país. Esses são exemplos de conhecimentos guardados na gente que podem virar moeda de troca. É um conhecimento que não está disponível na forma de produto ou serviço, mas que com um pouco de generosidade pode ser acessado e colocado à disposição do outro. Nem toda troca precisa ser financeira.

Rapidamente várias pessoas se interessaram e uma semana depois de fazer o post recebi a Anaïs aqui em casa, uma menina francesa que por coincidência está aprendendo português brasileiro. Com uma calça velha dela, fizemos quatro saquinhos médios para compras à granel e dois saquinhos pequenos. A calça estava rasgada em tantos pontos diferente que não daria para consertar. Ainda sobrou bastante tecido e na próxima vez vamos fazer guardanapos. Usamos até o forro dos bolsos. Da minha parte, aproveitei muito a conversa, as palavras novas que aprendi, o sotaque diferente que treinou minha escuta e também fiquei feliz com a minha capacidade de comunicação nessa língua que é tão nova para mim.

Nem precisa dar nome de escambo, de economia compartilhada, o que quer que seja. É só uma troca amorosa e cuidadosa com o outro. Essa troca é natural, inclusive, mas nos dias de hoje a gente precisa forçar um pouco mais para que elas aconteçam, ou nossas trocas ficam resumidas às que acontecem pelas nossas telas mesmo. Não me entenda mal, é delicioso o tanto que a gente pode viver através de uma tela. Se conectar com pessoas do outro lado do mundo, aprender uma receita, mostrar o nosso trabalho, fazendo só uma lista rápida. Mas pegar nas coisas com as mãos e ter contatos com desconhecidos tem um valor que não está apenas no utilitário e que desperta sensações e saberes de uma forma muito especial pra mim.

É dessa forma que eu quero estar nas redes daqui pra frente, é assim que vale a pena. De forma atenta e consciente, e focada em um objetivo: que as redes me proporcionem momentos felizes fora delas, e não só momentos de angústia e de insegurança.

E você, já parou pra pensar no que pode oferecer, algo além do que você faz pra ganhar dinheiro?

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