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Carta #19 | qual é o papel da mulher na sustentabilidade?

Semana passada, nós mulheres reinvidicamos nosso espaço. Na rua, no mercado de trabalho, nas universidades, na ciência, temos o direito de estar em todos os lugares e lutaremos por ele.

Esses dias me fizeram uma pergunta e eu tive que pensar um pouco pra responder: “Qual o papel da mulher na sustentabilidade?”. Precisei de um tempo para perceber que a maior parte do conteúdo que chega até mim sobre esse tema é realizado por mulheres. Então decidi mandar essa carta em um formato diferente e compartilhar alguns trabalhos que mostram que a mulher também tem espaço na sustentabilidade e seu papel é amplo e muito importante. Fique à vontade pra clicar nos assuntos que te interessam mais!

// O papel da mulher é cuidar.

Nesse vídeo, a futurista Lala Deheinzelin diz que se a gente conseguir responder à pergunta “você cuida de quê?”, quer dizer que estamos preparados para o futuro.

// O papel da mulher é cozinhar.

O primeiro episódio da nova temporada de Chef’s Table (na Netflix) mostra a abordagem totalmente diferente da culinária da monja Jeong Kwan, ela transmite o cuidado com as pessoas e com a natureza por meio da comida. A relação de respeito que ela tem com os alimentos é encantadora.

// O papel da mulher é denunciar.

Esse relatório da ONU derruba o mito de que o uso de pesticidas é necessário para acabar com a fome mundial. Ele foi escrito pela especialista ao direito à alimentação Hilal Ever e pode impactar diretamente mulheres que trabalham na agricultura.

// O papel da mulher é trocar.

A Mari Pelli acaba de lançar o Roupa Livre App, um aplicativo de trocas que é a concretização do discurso que ela espalha por aí: “A gente não precisa de mais roupas novas, a gente precisa de um novo olhar”.

// O papel da mulher é documentar.

O documentário The Ilusionists, sobre a imposição dos padrões de beleza às mulheres, é um trabalho da Elena Rossini. Ainda não tem data pra sair no Brasil mas eu tô adorando acompanhar os conteúdos compartilhados por ela no Twitter.

// O papel da mulher é pesquisar.

Na sua pesquisa de mestrado, compartilhada no Nexo em linguagem menos acadêmica, a nutricionista Natália Utikava quantificou a pressão que os diferentes padrões alimentares brasileiros exercem sobre os recursos hídricos.

// O papel da mulher é investigar.

A pesquisadora Natasha Felizi estuda os impactos das tecnologias de vigilância. Nessa reportagem ela conta que os aplicativos de ciclos menstruais podem ser bons para mulheres mas por outro lado, geram mais poder e controle para o mercado que compra os dados inseridos por lá.

// O papel da mulher é empreender.

Felizmente, muitas são as mulheres ao meu redor empreendendo negócios com foco em sustentabilidade. Resolvi colocar aqui o trabalho de duas saboeiras, que resgatam essa técnica que exige tempo e cuidado: a Anna Candelária da Sabon Sabon e a minha xaráFefa Pimenta.

+ E como mulher, eu já toquei várias vezes em assuntos do feminino por aqui. Então separei algumas dessas cartas passadas para quem ainda não leu:

carta #16 | outubro rosa e os cosméticos

É assustador pensar que marcas que levantam a bandeira do outubro rosa são as que vendem produtos com ingredientes sinéticos, disruptores hormonais e poluentes o ano inteiro; e que isso pode ser devastador pra saúde da mulher.

carta #11 | uma outra forma de beleza

Tantas mulheres presas em padrões de beleza. Não é o caso de julgar quem enrola ou quem alisa, quem usa maquiagem ou quem não usa, mas quanto do que a gente faz no nosso dia a dia é escolha nossa, quanto é resultado dos padrões a que somos expostas?

E pra você, qual é o papel da mulher na sustentabilidade? Me conta quais são as mulheres que são referência pra você nessa área? Vamos juntas!

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Carta #14 | porque escolher se posicionar?

“A gente sabe que não pode fazer nada pela nossa filha, mas no futuro essas coisas não devem acontecer — temos que fazer alguma coisa.”

Tá entalado aqui. A maioria das minhas amigas também estão paralisadas com o acontecimento da semana passada. A gente tá sentido a dor daquela menina do Rio de Janeiro. Nem todas conseguem expressar, mas temos em comum um sentimento de falta de esperança no que vem por aí. As forças pro dia de amanhã simplesmente sumiram, nos sentimos presas e impotentes. O desejo é de gritar, de chorar, de lutar — às vezes a gente consegue, dali uns minutos tenta evitar o pensamento, mas no fim não sai do lugar.

Como a gente pode lidar com esse sentimento? Como ele pode servir para nos transformar individualmente, e por consequência, transformar a sociedade? Talvez a frase aí em cima nos dê uma pista. Ela foi dita pelo pai da Jyoti, uma das vítimas da violência sistêmica contra mulheres na Índia. O crime cometido por seis homens gerou intensa comoção, mulheres e homens saíram às ruas pela liberdade e justiça em seguidos dias de manifestações. Essa história foi contada no documentário India’s Daughter.

O pai, mesmo com sua dor, conseguiu clareza pra entender que a vida da filha dele não podia ter sido tomada em vão, que era preciso tornar o futuro melhor. As leis do país precisavam mudar, com certeza, mas também a reação das pessoas diante de casos como esse. Em resumo, a gente tem que se importar. Não dá pra escolher um dia ou outro pra se importar. Tem que se importar todos os dias. Só assim, refletindo sempre sobre nossos hábitos, evitamos que eles colaborem com a violação de direitos básicos, como os da mulher.

Demorei alguns dias para conseguir terminar de ver o filme, ele é duro, a gente ouve coisas impensáveis. Com o coração partido eu sabia que tinha o dever de ser mais uma pessoa a compartilhar essa história. Mas naquele momento, alguns meses atrás, eu não sabia quem iria ser tocado verdadeiramente, se a recomendação não seria engolida pelo cotidiano tão automatizado. Se a Índia parecia longe demais, hoje está escancarado que a Índia é aqui, é no Rio de Janeiro e em qualquer lugar onde não há espaço para as mulheres.

E não é pra perder as esperanças, é pra ter certeza de que é preciso se posicionar diante do que a gente considera errado, romper o silêncio. Mesmo que individualmente a gente seja apenas uma voz, que essa voz seja a diferença entre seis, ou entre trinta.

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